Reticências…

Recostada à cama, enquanto ensaiava começar uma nova leitura, pus-me a pensar acerca de fatos inusitados do cotidiano…

Soa-me interessante, por exemplo, não nos sabermos precisar de certas coisas-pessoas-situações, até o instante em que elas surgem aos nossos olhos… eu poderia ter passado a vida toda sem provar chá de hibíscos – o que me faria perder um adorável sabor, certamente – e, a partir de minha ignorância, não precisaria prová-lo…

De maneira semelhante, tenho o desejo de visitar Paris e, ainda que se trate de um sonho que lateja em meu coração, sem acontecer, ao menos por enquanto…  conhecer a cidade – tomar partido de suas ruas, tonalidades, sons e aromas – talvez fosse como provar de uma xicara de chá de hibiscos…

Assim faço-me existir – em estado de paixão – até que se esgote por completo o encantamento em mim…

Águas mornas…

Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.

[Vinícius de Moraes – “Ausência”, In: Antologia Poética]

Nas madrugadas insones e angustiantes que perfazem naturalmente o meu cotidiano, eu lembro como se fosse hoje a primeira vez em que pude delinear seu contorno nu… Latente. Pulsante em mim.

Não foi um instante arquitetado e talvez – justamente por isso – eu tenha me surpreendido em demasia. Você me convidou ao ato como se ele sempre houvesse existido em nós. Deixei-me, pois, conduzir pelo seu instante…

Atuei diante daquela paisagem como a protagonista de um sonho e de todas as sensações que me perfaziam havia tempos, permitindo-me a luxuria de uma noite infindável, porque certas coisas o nosso íntimo decifra sem explicações – regras ou normas.

Um misto de plenitude e intensidade, duradouro até meados do dia seguinte, pois eu não conseguia me desfazer das lembranças impressas por sua derme em meu sentir…

Não existia ali somente o corpo – éramos duas almas líricas que haviam se unido “desde sempre”, em perfeita sintonia.

A temperatura borbulhante dos detalhes permeou cada encontro que sucedeu aquelas horas de estreia catártica. Foram meses de querer mais… Promessas de uma vida… Sementes plantadas na esperança de frutos que viessem tão saborosos quanto sua vertigem…

O tempo passou e, como todas as histórias que me foram contadas ao longo da vida, esta também teve o seu fim. Uma pausa mal dada, eu diria… Marcando o coração com o gosto amargo da distância do que se queria tão próximo.

Não sei bem como se deu o momento – mas compreendo sim que algo mais forte fez com que eu te perdesse. E quase que imediatamente me soltei de mim.

As águas de um romance tórrido – que costumavam latejar em minha pele de ardor e paixão, com uma naturalidade bastante apreciada – simplesmente se amornaram… E não houve quem as pudesse reaquecer.

Busquei inúmeras maneiras de resgatar o acalento de seus braços, ainda que notoriamente obtivesse nenhum sucesso… Sem esse enredo eu me via apenas como parte, já que na minha concepção o todo estava bem ali: em você.

Aos poucos, pude retomar a tão almejada paz de espírito. Tratei de devolver certa espécie de serenidade ao meu interior, reconstruindo o que havia se quebrado num repente. Em contrapartida, deixei de ser aquela alma vibrante de prazer…

Gradativamente me adaptei ao morno. Ao singelo. A uma existência isenta de paixão – mas também com menor risco de dor ou abandono.

Ainda hoje, admito a falta abrupta de sentir arder a pele por sua presença.

Contudo, também já não me queimo mais…

*Este post é parte integrante do projeto “Caderno de Notas – Segunda Edição”, do qual participam as autoras Ana Claudia Marques, Ingrid Caldas, Luciana Nepomuceno, Lunna Guedes, Maria Cininha, Tatiana Kielberman, Thelma Ramalho e a convidada Mariana Gouveia.