Quero (apenas) uma palavra para rimar comigo…

Eu não tenho muitas histórias palpáveis para contar, mas reúno em minha imaginação um punhado de sonhos que saltitam de ponta a ponta – feito mágica –, aguardando apenas um espaço para adentrar e fazer morada…

Tenho palavras prontas a serem desconstruídas – trocadas por silêncios, talvez – e não me importaria em dividir uma folha em branco com olhares que imagino, mas que, por enquanto, desconheço!

Com uma venda nos olhos, dirijo-me a uma instância qualquer – a um ponto cego, ao léu –, à deriva… Abdico da sensação de um controle por alguns segundos… e vou, aonde nunca tive coragem de ir.

Sigo com o vento e ele me leva em suas entranhas, carregando em seu ventre lágrimas, desabafos, tapas na cara, mágoas e todo o peso que não preciso mais aqui.

Quero apenas uma palavra para rimar comigo… E, se a escuta estiver aguçada – em meu íntimo – certamente a estrofe será perfeita!

Encantamento em letras…

Eu queria estar dentro do seu coração para sentir o que você sente enquanto deita suas linhas no papel… São palavras que parecem tão mágicas que me soam como puro encantamento – algo que não partiria de um ser comum – mas sim de alguém com raras habilidades sensíveis para esmiuçar a alma humana.

Eu queria entender como você concilia seu cotidiano – aparentemente tão rotineiro, aborrecido e repleto de regras – com a delicadeza esbanjada em cada um de seus versos, que espelham o sentir em sua forma maior.

Eu queria estar em sua pele para compreender de que maneira surge a inspiração, que suavemente parece escorrer pelas pontas de seus dedos em direção ao nosso íntimo – sem barreiras, sem exigências – apenas substrato da natureza…

Sabe… às vezes, eu queria ser você por cinco minutos… Porque, quando escreve, você é um pouco de cada um de nós – todos os dias – ao longo de uma vida inteira.

*Para Mariana Gouveia, que traduz o lúdico em mim…

Quando a alma pede um reencontro…

“Escrever deve ser uma necessidade,
como o mar precisa das tempestades –
é a isto que eu chamo respirar.”

[Anaïs Nin]

Ando precisando de mais tempo com as palavras, disse-me uma grande amiga hoje, enquanto tomávamos café… Logo eu, que vivo cercada por textos diversos, na busca de que as linhas façam algum tipo de sentido, primeiro em minha mente – para só depois chegarem até o olhar do leitor.

Contudo, foi inevitável reconhecer quase de imediato que ela estava certa: tenho me sentido farta de vocabulários múltiplos, mas vazia de um significado qualquer. Os dias me pedem para dar conta das tarefas cotidianas e, com isso, isolo-me de um dos meus maiores prazeres: delinear letras próprias, que venham da essência…

Quase todos os meus trabalhos envolvem produção, leitura e edição de textos – e não foi à toa que segui por esse caminho. Sou amante da escrita desde que me entendo por gente e, com sinceridade, posso dizer que é inimaginável viver de outro modo.

Acontece que em grande parte das vezes preciso lidar com linguagens que não me são nada familiares. É como se o tempo todo eu estivesse tomando contato com o meu objeto de estudo pela primeira vez. Nunca passei meus olhos por aquelas páginas – mas preciso agir como se elas sempre tivessem residido em mim.

Talvez seja justamente isso o que me estafe e, de certa maneira, também acabe por me afastar das palavras. Por não conseguir dedicar a elas o tempo e o carinho necessário, vou deixando para depois… e tudo se perde, como num sopro.

Sinto que é hora de finalmente resgatar essa paixão. Reencontrar-me com pedaços meus que ficaram soltos por aí – seja por distração ou devido ao excesso de ansiedade.

Ah… os excessos! Soam-me tão densos e percorrem cada uma de minhas entranhas… Vislumbro o dia em que serei comedida em minhas escolhas – mas entendo que isso de fato só ocorrerá quando eu me desprender deste corpo, que clama por viver e sentir de modo abusivo…

Por ora, resta-me apenas utilizar os instrumentos que tenho nas mãos: algumas horas de cuidado com a tela em branco do computador. O dedilhar por entre as teclas… Uma música de fundo e, quem sabe, as letras voltem a fluir levemente no coração – de onde, ao certo, nunca deveriam ter se ausentado.

Sobre cultivar palavras…

“(…) amarga-me a boca a certeza de que umas quantas coisas sensatas que tenha dito durante a vida não terão, no fim de contas, nenhuma importância. E por que haveriam de tê-la? (…)”

– José Saramago –

Na singeleza de alguns dias mais amenos, eu me desperto em letras, sem a pretensão de buscar entendê-las ou de que, por ventura, façam qualquer espécie de sentido.

É como se os pensamentos simplesmente acordassem já produzindo um ritmo próprio, na cadência de sua melodia harmoniosa e segura – com margem de erro bastante ínfima.

Mas, aí me pergunto: o que é o erro? Seria uma tentativa humana de definir aquilo que vai contra o esperado? De mensurar o que não se encaixa, por transpor limites? Ou, quem sabe, um simples (e complexo) modo de ditar regras, sempre de um suposto seleto grupo para a maioria calada do mundo.

Enfim, o fato é que nem sempre me reconheço quando o ambiente é seguro demais. Para escrever, ou seja lá o que for… Gosto das nuances do improvável. Do que pode não ser tão certeiro assim. De arriscar e ver no que vai dar – porque eu construo o meu caminho à medida que o percorro.

Assim percebo o quanto minhas letras são baseadas em um cultivo constante, afinal, sem bastidores pautados em múltiplas experiências, a arte de traduzir o que se sente não ganha motivo para existir.

E, se ao final, como bem diz Saramago, pouco disso houver tido realmente importância, o próprio barulho dos passos, a força das palavras rasgadas no papel – e a vida em si, um evento por si só extraordinário – já terão ditado suas próprias regras…

Eu pouco entendo de eternidades, mas o futuro breve tem sido um bom amigo.