Coração crepuscular

Hoje eu vi um coração desenhado no céu, entre nuvens. Qualquer outra pessoa que observasse a mesma paisagem, talvez nada enxergasse… mas a mim aquela figura era toda sorrisos!

Já passava das seis e a noite caía feito um manto de luz a cobrir meus olhos, enquanto o breu anunciava lentamente as batidas do tempo…

Tudo estranhamente em seu devido lugar… apenas um punhado de ausências e outra meia dúzia de angústias, sobre as quais decidi – por bem – me debruçar em outro instante.

O coração transfigurado dialogou com meu íntimo, mostrando-se não apenas como um sinal aleatório… trouxe, em si, o significado de que – em certos dias – a vida pode pulsar com maior tranquilidade entre céu e terra.

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Eu, sabática em mim…

“Comprei um espelho enorme. Acho que nunca tive um espelho tão grande. Consigo me ver inteira.” 

Li o trecho acima no blog da Dora, em plena manhã nublada de segunda-feira, e – inesperadamente – ele conseguiu traduzir muito do que estava borbulhando nos entremeios da minha alma… o texto do qual a frase faz parte falava de um assunto que não tinha relação alguma com o gatilho disparado em mim. Mas é comum a gente procurar uma coisa e acabar achando outra.

Já faz algum tempo que os fatos não se dão de maneira igual por aqui… eu não comprei um espelho novo de verdade, mas tenho me oferecido de presente pequenos feitos simbólicos que puderam – pouco a pouco – modificar o rumo dos acontecimentos.

E, do mesmo jeito que “mudaram as estações”, há algumas que já não me bastam mais. Deixo de me conformar com o simples bater das horas, sem que o sentir estale em meu coração. O desgaste me exaure, o estresse me faz abominar a loucura dos dias… é preciso uma pausa!

Hoje, diante desta preguiça que me parece maior que o universo… de uma inércia que me soa tão indesejada, quando começo a listar as mil coisas que tenho para fazer… enfim, constato: quero e preciso de um tempo sabático. Segundos… minutos… dias… meses, apenas para mim. Eu, meu universo e a solidão – nada egoísta – de tão somente existir.

Não sei ao certo como seria possível viabilizar esse tempo, já que o mundo real nos demanda olhos abertos, coração pulsante e – tantas e tantas vezes – abdicar de sonhos momentâneos pela sobrevivência a médio prazo. Mas, nem por isso, deixo de lado a vontade latente que arde em meu peito.

Alimento o ímpeto de estar – agora mesmo, e sempre que possível – em um local ameno, tranquilo, com minha xícara de café e meus livros… talvez caderno e caneta ao alcance das mãos, tela do Word em branco… para que as ideias não se percam por um momento sequer, flutuando do imaginário ao real em questão de um rompante. Sem compromisso com o fim.

Meio-mundo entre parênteses

“Não lembro em que momento percebi que viver deveria ser uma permanente reinvenção de nós mesmos — para não morrermos soterrados na poeira da banalidade embora pareça que ainda estamos vivos.”

[Lya Luft]

Xícara de café em repouso, pensamentos à solta, ideias de um universo particular em ebulição… Permaneço à esquina do abismo, a esmiuçar silêncios para atentar ao meu próprio sussurro, numa lentidão nunca antes reconhecida…

Em meu íntimo, ouço um punhado de vozes alheias, que não se furtam a gritar cada uma das imprecisões espelhadas nesse avesso que sou… delineiam perversidades e acabam por somar desconfortos.

Sempre me incomodaram os ruídos de dentro… mas tenho encontrado presenças barulhentas em excesso, cuja liberdade de apontar o dedo ao outro se mostra absolutamente invasiva.

Enquanto sorvo mais um gole do café, busco digerir as senhoras verdades de um mundo que não se quebra… Por ora, tira-me o fôlego a sensação de que algumas coisas apenas habitam outros cenários, assim como a ansiedade pelo momento seguinte, que ainda não me pertence…

Haverá de pertencer algum dia?