A poesia que se lê hoje em dia…

Já deixou de ser novidade que o mundo gira de maneira cada vez mais veloz e, em incontáveis momentos, o ser humano se vê atropelado por seus próprios passos.

Não raro, isso acontece até mesmo sem querer: planejamos aquela leitura tão esperada, o passeio diferente em família, encontrar um amigo que não vemos há meses e… num piscar de olhos, tudo o que havia sido programado vai por água abaixo.

O que ocorre não é falta de vontade, nem displicência: o tempo simplesmente escorre pelas nossas mãos, fazendo com que compromissos de trabalho, reuniões urgentes e imprevistos de última hora se sobressaiam em relação aos demais itens da rotina. Perdemos a noção de prazos e, uma vez que tudo se tornou tão urgente, fica difícil priorizar ou fazer escolhas.

Em meio a essa reflexão, eu me pego pensando na poesia. Sim, na poesia! Não aquela rebuscada, que se diz feita para literatos. A poesia nossa, de cada dia…

Quando foi a última vez em que você se permitiu pegar um livro aleatório em sua estante e ler — para si mesmo — um punhado de versos? Ou entrou em certa livraria, despretensiosamente, e passou alguns instantes degustando estrofes?

Garanto que, mesmo que você seja amante de leitura, poucas vezes oferece a si mesmo esse deleite. Talvez opte por comprar os novos títulos dos seus autores preferidos logo que são lançados, até mesmo pela internet — o que acaba por tirar um pouco do prazer visual que antecede a aquisição de um bem tão subjetivo como é o livro.

Em um panorama de velocidade, dinamismo e impaciência, nós — indivíduos vorazes — raramente nos damos ao luxo de parar por um instante e apreciar a beleza que o poético oferece.

Não há pausas. É preciso produzir, caminhar, seguir, trabalhar, agir. Ler? De preferência, se for algo voltado a trabalho — e rápido. Não temos tempo a perder. Mas, com isso, quanto será que também deixamos de ganhar?

A poesia compete com a televisão, com o computador, com os smartphones e, por que não dizer, com o próprio sono, que anda escasso para os humanos que se inserem na sociedade de hoje em dia. Por que ler poesia se posso usar esse tempo para dormir? É triste, mas é real.

O que me conforta e se faz um alento para a alma é saber que têm sido lançadas, recentemente, coleções com a obra poética de grandes nomes da literatura brasileira e internacional. Livros de cabeceira, quase verdadeiras enciclopédias, para quem tem olhos de ver. De sentir. De se permitir encantar.

Além disso, talvez a poesia ainda esteja a salvo em saraus, rodas de leitura, peças de teatro e, principalmente, nas mãos daqueles que separam um pequeno espaço de suas vidas — tão corriqueiras e atribuladas – para ler e escrever versos.

A poesia anda escondida em algum canto por aí nos dias de hoje… Quem se puser a encontrá-la, certamente terá um tesouro inestimável nas mãos.

*Texto escrito e publicado originalmente na Revista Plural – edição ‘Cafeína na veia’/março de 2014, que pode ser lida em www.pluralrevista.blogspot.com.

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Existência

Eu sou aquela que queria ser outra

Mas, na tentativa sôfrega de silêncio, sucumbiu à essência

Foi milagre, salto pulsante de ideias e cores

E se fez viva como nunca imaginava ser

Eu sou a promessa insólita, a dívida do fraco

A incoerência do forte em se fazer digno de luta

Fui seresteira do mato, hoje busco alento

E canto, porque tudo o que sei é cantar

Eu sou a troca do inusitado, magia daquela época

Sopro de susto, nascida à beirada

Mas vivente, juíza final da sombra que se fez luar

Apenas berço aspirante a um crescer

Eu sou a poesia desejosa do mundo

Com um universo à parte, para não esfriar

Uma vontade insana de grito, mesmo que seja para dentro

Pois é aqui no íntimo que vivo, este é o lar que me abriga

Eu sou esta que vos fala

Não sei se um dia serei outra, nem o quanto adentro em mim

Mas o eco das palavras me traz uma espécie de certeza

Das horas, dos fatos, da vida…

 

De um lugar chamado existência.