Sonho real…

“A resposta certa não importa nada:
o essencial é que as perguntas estejam certas.”

[Mário Quintana]

Despertei lentamente em meio à penumbra do quarto que, como num sopro, chamou-me à vida nesta manhã… a realidade entremeada em seus cortes fez a alma recordar o sonho: nele estava você! – com suas metáforas e o tanto que delas fermenta em meu ser: devaneios imprevisíveis…

Sua figura veio ao meu encontro, como costumava acontecer tempos atrás… Adentrou cada canto daquele espaço, acariciando meus cabelos de menina – e, confesso: abri os braços, ensaiando um abraço demorado – mas, conscientemente, tudo o que minha fragilidade permitiu foi o silêncio…

Suas mãos suaves feito brisa chegaram a percorrer o meu rosto – latente em chamas de afeto –, com um toque sereno… inconfundível! Por um segundo, abri  mão de meus infortuníos… revelando parte do que mantenho embaixo dos véus, que ofuscam o meu olhar inócuo  – como neblina  – rudimentando os dias.

Desnudei-me frente ao seu espelho, entregando-me fielmente ao seu colo… entorpecida, absorta, perdida e, ao memo tempo, liberta… para suplicar certa espécie de orientação aos meus movimentos!

Seu abrigo acolheu-me a alma, possibilitando o desadormecer de meus sentidos… amanheci em paz, como se a realidade fosse ainda parte desse sonho!

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A minha realidade não existe.

Desde o princípio dos tempos, quando não havia sombra nem brisa, tornei-me um sopro que se quis verdade.

Fui fiel ao canto que ouvi ao longo daquelas noites e, pausadamente, construí o que pensava ser real.

De fato, não era apenas um pensamento. Eu tinha as minhas certezas e quem refutasse poderia ser comparado a um mero bobo.

Boba, talvez, tenha sido justamente eu, ao pensar que a sorte de um bom encanto pautado no sonho satisfaria os impulsos da vivência.

Tentei, sim, criar traços de concreto. Expus o cimento ao chão e idealizei castelos, que não eram feitos de areia nem de vidro, muito menos de aço.

Eles se compunham de alma. E eu me via ali, completamente entregue àquela essência que havia derramado de mim.

Aos poucos, bem aos poucos mesmo, compreendi a mensagem. Eu não havia feito nada. Eu não era nada.

Um punhado de lembranças se vislumbrava em algum lugar, à minha espera, aguardando ser agarrado por mãos fortes e sadias. Mas eu não sabia bem por onde iniciar a procura.

É… Por muito tempo, deixei tudo espalhado naquele canto que não visitei, à esquina de qualquer essência.

Foi na catarse que pude parar de aceitar o limbo das ilusões, correndo em busca dos resquícios perdidos no livro da minha própria história – ainda em branco.

Deu-se o começo, pois, de uma intensa e nova perspectiva. Um caminho de folhas caídas que cedia espaço às sementes do nascer.

Precisei dar o primeiro passo para me reinventar.

Porque, até o presente instante, a minha realidade simplesmente não existe.

Um despertar…

“Eu hoje tenho a sorte de poder
viver apenas UM DIA de cada vez,
Apenas um romance enquanto o sentimento permite,
A sorte de poder PRESTAR ATENÇÃO a quem fala comigo,
A sorte de poder OLHAR e VER quem me dirige a palavra,
A sorte de não estar no ritmo alucinado da ansiedade,
A sorte de apreciar o belo, o bom e o construtivo.
Porque HOJE eu estou em mim.”

– Cláudia Costa –

O tempo acabou. Quase não me sobrou nada, é fato.

Mas, talvez o que reste se configure suficiente para montar um quebra-cabeça lúdico, outra nova ciranda sentimental, uma roda-gigante de medos que possa ser, minimamente, reinventada em seu íntimo.

Não tenho mais em mim a pausa da vida. Qualquer resquício de brevidade se calou nos atalhos do meu coração, pois precisou oferecer espaço a novas sementes, ao pulsar das escolhas.

Ainda há certos ensaios e bastidores, é claro…

Isso porque eu jamais conseguiria viver sem o ócio que permeia cada uma das entranhas de uma decisão corrida.

Preparei-me para o deleite e cá estou a lambuzar-me, sem saber exatamente o sabor das cores e dos ventos a seguir.

O que sei é que me faço aqui, presente, buscando ser inteira a cada passo.

Tudo aquilo que existe no meu presente é permeado por uma busca variada e múltipla de desejos que se misturam em um extremo sonhar, com delicioso gosto de realidade.

Ofereço, pois, um brinde ao meu suave despertar.