O tempo das horas, o tempo da alma…

“Tenho as opiniões desmentidas, as crenças mais diversas – É que nunca penso nem falo nem ajo… Pensa, fala, age por mim sempre um sonho qualquer meu em que me encarno no momento.
Vem a fala e falo-eu-outro. De meu, só sinto uma incapacidade enorme, um vácuo imenso, uma incompetência ante tudo o que é a vida. Não sei os gestos a acto nenhum real.
Nunca aprendi a existir.”

| Fernando Pessoa, ‘Inéditos’ |

16 horas. O relógio anuncia a passagem da segunda-feira e de toda sua gente apressada-atrasada-avoada-sufocada-suprimida… São dias comuns ao recomeço, ao tentar de novo e, quem sabe, conseguir…

Dar vazão a projetos deixados para o instante seguinte, engolir um medo aqui e outro acolá… vida real que nos chama de volta a cada novo segundo.

Para mim, as segundas-feiras têm sempre esse ritmo de possibilidade, de outra chance… Confesso que – se pudesse – gostaria de decretar este como o meu dia oficial de férias da semana. Não é exatamente uma ideia minha… mas apreciei muito as premissas que a envolvem!

Deixar as obrigatoriedades de lado… dedicar boa parte do tempo aos meus escritos preferidos… deleitar-me por algumas horas a mais de preguiça na cama… comer bolo de fubá acompanhado de cafezinho fresco… caminhar sem rumo, correndo o risco de encontrar respostas a perguntas que eu nem sabia ter…

Só por hoje, sinto o entardecer e suas nuances se aproximarem e, curiosamente, não estou tão atrasada assim…

Algumas linhas sobre ‘Sete Vidas’…

Assisti na Globo à telenovela ‘Sete Vidas’, de autoria de Lícia Manzo, desde o início… fato raro, principalmente devido ao horário. O enredo – contudo – me conquistou, com sua aparente leveza e a afetividade demonstrada dentro da trama… como o diálogo entre Esther, personagem de Regina Duarte, e Eriberto, interpretado por Fábio Herford.

Após vivenciar um relacionamento infeliz, Eriberto está prestes a deixar a esposa, com quem pouco conseguiu encontrar afinidades. Ao mesmo tempo, percebe em Renan, seu amigo, uma sintonia sem igual, que lhe permite a proximidade possivelmente almejada – e não obtida – em seu casamento.

Contudo, pelo fato de vir de uma família tradicional e preservar valores exigidos, principalmente, por seu pai, Eriberto evita olhar para determinadas questões, inclusive para a possibilidade de assumir sua homossexualidade.

É nesse momento que Esther apresenta, a partir de sua própria história, nuances que poderiam fazer com que ele enfrentasse os próprios medos, dando voz a seus desejos e vontades…

Esther – mãe de gêmeos por inseminação artificial, e viúva de Vivian – conta, de maneira breve, a sua história a Eriberto, revelando como conheceu sua companheira e sentiu que era ao lado dela que gostaria de passar o resto de seus dias. 

Ela afirma ter percebido em Vivian uma receptividade tão evidente que ambas se tornaram um tipo de casa, de abrigo, uma para a outra… Ao lado de sua mulher, Esther se sentiu à vontade para compartilhar e viver o que quisesse, isenta de receios, além de ter a oportunidade de falar abertamente de todo e qualquer assunto, sem pré-julgamentos…

A cena se encerra com o silêncio de Eriberto que, certamente, poderia ser a resposta mais genuína ao chamado da amiga para a sua realidade… e, quem sabe, também para a de cada um de nós… Quantas vezes desejamos ser um lar para alguém? Ou, ainda… que uma pessoa se torne a nossa própria casa?

Julho e seus horizontes…

“A vida que imaginamos é uma casa transparente sem janelas nem saídas. A gente a constrói com palavras e silêncios, abraços e afastamentos, uma vida paralela a isso que parece o concreto cotidiano. Ali o amado não entra, a amada fica de fora, sombras e luzes como espectros dançam e acenam. Fora dessa casa de vidro existe outra vida, que chamamos real. Com pão e manteiga, aroma de café, lençóis úmidos de sexo, filhos correndo, pais envelhecendo, contas a pagar, cargos a ocupar, nomes e marcas e tráfego e sonhos e consumo, e sonhos de consumo. E dor.”

| Lya Luft, In: ‘O tigre na sombra’ |

Existem dias em que o aconchego e o conforto de ser quem sou surgem como uma composição de Bach: com suavidade, num crescente inconfundível, fazendo com que as notas se harmonizem em naturalidade plena…

Há outros momentos, porém, em que quase não me reconheço nas notas da canção… A melodia ganha impasses que repelem a delicadeza da alma, afastando qualquer possibilidade de esperança…

Felizmente, o mês de julho trouxe consigo o prenúncio de sonoridades amenas, permitindo repousar não apenas o coração, mas também o olhar e seu cansaço vicioso de antes…

Escolhi alguns livros a serem degustados, reordenei compromissos de trabalho e propus outras oferendas a este novo ciclo que se coloca diante de mim. Nem sempre (ou melhor, quase nunca…) consigo cumpri-lo como desejo, mas o fato de planejar já é uma premissa… um passo rumo ao dia seguinte…

A depender das circunstâncias, percebo o quanto me acostumo a simplesmente ‘não estar bem’… e a chegada de julho me propiciou a coragem para desafiar esse pensamento: em que medida é preciso – de fato – me conformar com o impossível?

Não possuo todas as respostas na manga, e confesso: que bom que o calendário se faz generoso nesse sentido, brindando meu caminho com trinta e uma chances para repensar e organizar esse ciclo insano-maluco-rebelde-tardio no qual me insiro…

Tenho buscado oferecer uma pitada de poesia aos meus dias, até mesmo quando eles se mostram um pouco nublados… E, enquanto assisto às manhãs chegarem, com seu brilho iluminando a janela… sorvo mais um gole de coragem (preferencialmente, disfarçado de café – seu formato mais genuíno) e me preparo para a vida que desejo re-desenhar…

Ainda nem escolhi todas as cores e formas… mas a alma me diz que já é hora de pulsar outra vez, afinal, há tanto lá fora que ainda não vivi… E outro tanto, dentro de mim, que necessito experimentar!

… ao acaso?

Há uma canção do Legião Urbana que diz: “disciplina é liberdade”… foi uma amiga próxima que me alertou sobre a preciosidade dessas palavras, às quais eu nunca havia dado muita importância, mas que acabam por produzir mudanças muito intensas em mim, quando decido adotá-las como lema de vida…

Desde pequena, confesso não ter sido a pessoa mais disciplinada, apesar da aparência certinha, que denotava alguma delicadeza nos gestos e escolhas… Sempre deixei que um tal de destino compusesse o quebra-cabeças da minha existência, de modo a encaixar as peças conforme bem entendesse… se desse certo, ótimo! Caso contrário, era tentar e tentar outra vez, até conseguir.

A partir dessa crença baseada em happy-endings, corri riscos sem ao menos mensurar certas emboscadas, e assumi desafios bem maiores do que meu raio de alcance, o que nem sempre resultou em algo bom de verdade… Passei por consequências das mais diversas e aprendi – a duras penas – que nem tudo dá certo no final…

Tive que me render, pouco a pouco, à disciplina, anteriormente tão dispensada por mim. E, além da leveza conquistada, é inegável afirmar que – como nos ensina Legião – eu me sinto mais livre, sem precisar guardar todos os compromissos e responsabilidades na memória, no corpo e na alma…

Aprendi que delegar não é crime, que pedir ajuda é sinal de sanidade e, acima de tudo… que, para ser feliz por fora, preciso primeiro descobrir como me sentir confortável aqui dentro…

Será possivel reencontrar esta tarde?

Também eu saio à revelia
e procuro uma síntese nas demoras
cato obsessões com fria têmpera e digo
do coração: não soube
e digo da palavra: não digo (não posso ainda acreditar na vida) e demito o verso como quem acena
e vivo como quem despede a raiva de ter visto.

– Ana Cristina Cesar –

Recosto-me aqui em suave teimosia, como quem procura por novas palavras neste vocabulário que, a um primeiro olhar, parece vasto-imenso-amplo… mas, em tão decisivos momentos, deixa-me à deriva, permitindo que eu me alimente apenas de minha voz interior.

Escolho um assento que demonstra receber confortavelmente o meu corpo e, de certo modo, também acalenta a alma… O sabor do chá já havia sido selecionado antes mesmo de estar em frente à tela em branco, afinal… os rituais me precisam. Eles urgem em mim como água que necessita de fonte para nascer e atingir seu ápice.

Para hoje, amoras silvestres… nem tão doce, nem tão amargo. Cítrico, talvez? Uma representação deste momento que não sei definir, e pode ser que nem precise… Afinal, nem as palavras me concederam – até o presente instante – a honra de seu encontro!

Meu coração recebe um convite para reviver o que ainda não foi dito… suspirar a lembrança que ainda não foi vivida… alinhar realidade e imaginário em uníssono, possibilitando o elixir das emoções…

Algumas letras arriscam voar da mente em direção ao papel e posso sentir, enfim, que respiro em paz… Sorvo o líquido já morno que vem da xícara de chá, minha companheira amena destas horas que desejaria tanto prolongar.

Não sei se sou uma extensão de meus dias ou se eles é que se dão através de mim: por ora, deixo-me restaurar por esta simbólica tarde de singelezas, amenidades… e vida.

Palpite…

A confusão a fraude os erros cometidos
A transparência perdida — o grito
Que não conseguiu atravessar o opaco
O limiar e o linear perdidos

Deverá tudo passar a ser passado
Como projecto falhado e abandonado
Como papel que se atira ao cesto
Como abismo fracasso não esperança
Ou poderemos enfrentar e superar
Recomeçar a partir da página em branco
Como escrita de poema obstinado?

| Sophia de Mello Breyner Andresen, in “O Nome das Coisas” |

Não espero mais até o dia em que as ondas deste imenso mar irão me engolir por completo… sinto-me desalojada de minha própria pele, onde já não cabem as vestes de uma alma partida ao meio – próxima a desabar.

Vivo o agora em suas repetições desarmônicas, enquanto ecos inúmeros reverberam em meu íntimo; histórias… amores… desilusões… toda uma existência gravada no filme da memória, perpassando minha mente em questão de segundos.

O tempo toma minhas mãos como se esta fosse a primeira vez… mas, embora exista recusa em acreditar, a intuição me conta: passei por aqui muito antes…

Vozes…

Fecho meus olhos… sorvo o último gole de café que restou na xícara e deixo que o coração me conduza à realidade onde há vozes que ferem o ponto invisível desta trama, dilacerando friamente o que antes se mostrava regenerado. Incólume.

Vou ao chão, enquanto observo desordens massacrantes invadirem meus poros, sem brechas. Sem restar aquela que um dia eu fui…

Burburinhos atropelam meus vícios… entontecem meus extremos – como se estes já não fossem densos o suficiente no íntimo desta vida em que busco existir. São barulhos inatingíveis, que talvez nunca cessem…

Provavelmente apenas cheguem assim – de solavanco – a me espancar com verdades ingratas-amargas-surradas…

Quanto mais vozes ouço, mais facilmente ensurdeço, e tão maior se torna a saudade do antigo silêncio de mim… dessa pausa amiga, que não agride… dessa graciosa aliança entre lábios meus.

A literatura que sou…

Humildemente – e com certo traço de constrangimento, é claro – confesso que tentei engatar a leitura de três ou quatro livros diferentes dentro do último mês… todos eles devidamente escolhidos e comprados por mim, com estilos diferentes e propostas outras.

Porém, em determinado instante – lá pela página 30 –, algo parecia desandar, fazendo com que o estímulo inicial fosse deixado de lado. No início, imaginei ser um problema relacionado à minha distração ou, quem sabe, a uma falta de afinidade com o tema tratado naquelas páginas… Contudo, à medida que fui abandonando um título após o outro – sem o menor sinal de insistência – pude iniciar um diálogo interior que redefiniu, de certo modo, o rumo de minhas reflexões.

Tenho buscado, cada vez mais, criar e me identificar com um estilo próprio de escrita. Entendo que se trata de um modelo que se constrói – por vezes – durante uma vida inteira, mas no dia a dia venho me aproximando daquilo que acredito ser o meu “ideal de palavra”: o que gosto de ver escrito por mim no papel, pois reflete muito do que sou. E, nesse sentido, também, penso que se delineia o meu construto de leitura.

Se, atualmente, tenho o hábito de escrever crônicas mais intimistas – que retratam minha alma e pensamento por meio de fatos do cotidiano –, é bem provável que deseje realizar leituras compatíveis a essa estrutura. Isso não exclui a possibilidade de degustar romances, contos, novelas e outras histórias de ficção, mas enquanto me negar à busca daquilo que se faz congruente ao meu sentir, será – de fato – muito difícil terminar qualquer livro que seja…

Vou ali até a estante, então, resgatar meu precioso Rubem Alves, que sempre me aguarda com seus braços abertos e ensinamentos singulares, para que eu não me perca de vista, mesmo me desencontrando tantas vezes por aí…

Ímpar

Na tarde de ontem – de supetão, como quem leva uma fisgada no peito e sucumbe à sombra de si mesmo – a vida me deixou outra vez à deriva… e, sem pestanejar, eu recorri abruptamente aos braços dela… Às suas palavras-gestos-formas-de-existir: tão distantes do que já conheço, mas tão próximas ao que almejo ser.

A busca não foi em vão: suas letras me encontram mesmo quando a procura se mostra incerta, feito ritmo suave que dança ininterrupto em meus pensamentos.

Se sou intensidade, suas oportunas palavras me guiam a um vazio acalentador – que não se furta a sentimentalidades nem às sutilezas da alma –, levando-me ao encontro das nebulosidades internas que, por tanto tempo, busquei esconder de mim.

Seu cenário reconfortante não é adivinha, não é mistério nem privilégio: veste-se apenas tradução de um cotidiano inegável. Ela é mesmo dona de uma mística inconfundível em linhas que perfazem sua realidade encantadora, tão somente incomum. Tão somente ímpar.

Na tarde de ontem eu posso ter me perdido novamente diante do mundo, mas me encontrei de outro modo em seus olhos. Me reformatei a partir de sua perspectiva…

…e fui mais.

No cinza das horas…

Até há poucos meses, lembro que costumava reclamar da ausência de palavras e – também – da falta de tempo para organizá-las, nos raros momentos em que surgiam… A inspiração se mostrava escassa e tudo parecia girar em torno apenas das tarefas cotidianas: trabalho, estudo, praticidades e milhares de metas a cumprir.

Confesso que ultimamente – não sei dizer exato o porquê – o cenário se modificou sobremaneira: consoantes e vogais se exacerbam em minha substância… implorando espaço para se eternizar – num ‘crescente agudo’, como li nas palavras de Lunna, dias atrás… –, preenchendo o espaço do senso comum, como se fosse possível transformar em lúdico todo um contexto de realidade vil… 

Olho para os lados e uma mancha cinzenta se sobrepõe à minha visão… peço refúgio às letras que, de certo modo, acabam por aliviar a loucura, permitindo-me não perecer frente ao caos da vida.