Aniversariar…

De que são feitos os dias?
– De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.

Entre mágoas sombrias,
momentâneos lampejos:
vagas felicidades,
inatuais esperanças.

De loucuras, de crimes,
de pecados, de glórias
– do medo que encadeia
todas essas mudanças.

Dentro deles vivemos,
dentro deles choramos,
em duros desenlaces
e em sinistras alianças…

Cecília Meireles

Seria um tanto insensato dizer que não me prendo a certos marcos do calendário… Essas datas, de algum modo, delineiam a minha existência e concedem uma entonação concreta ao cotidiano.

As lembranças inscritas no pergaminho da história que construo me fazem pisar em solo firme e estar atenta a uma realidade nem sempre digesta a um primeiro olhar… mas, acima de tudo, reconhecer-me em minha própria pele.

São dias meus… vividos intensa e exclusivamente por meu corpo, por minha alma. Cicatrizes imersas em uma trama inegável – intransferível. Muitos podem querer traduzir-entender-julgar-conhecer, numa tentativa falível de ‘existir pelo outro’…

Contudo, não é preciso ser demasiadamente sábio para compreender que cada coração possui a sua própria marcha… um ritmo intrínseco a si – jamais exposto. Bastante atenuado perto do que – de fato – existe do lado de dentro.

Hoje completo mais um ciclo de memórias. Vivências outonais se fecham diante de minha janela, trazendo novos olhares…

Quais serão eles? Talvez ainda seja cedo para supor, mas… o meu maior desejo é de continuidade. Permanecer no caminho que escolhi sem dar por mim e que, por intuição, levou-me ao lugar mais próximo de minha essência, até o instante presente.

Ser fiel ao sonho… Aniversariar não só hoje, mas todos os dias, em um contínuo fluxo de renovação.

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Quero (apenas) uma palavra para rimar comigo…

Eu não tenho muitas histórias palpáveis para contar, mas reúno em minha imaginação um punhado de sonhos que saltitam de ponta a ponta – feito mágica –, aguardando apenas um espaço para adentrar e fazer morada…

Tenho palavras prontas a serem desconstruídas – trocadas por silêncios, talvez – e não me importaria em dividir uma folha em branco com olhares que imagino, mas que, por enquanto, desconheço!

Com uma venda nos olhos, dirijo-me a uma instância qualquer – a um ponto cego, ao léu –, à deriva… Abdico da sensação de um controle por alguns segundos… e vou, aonde nunca tive coragem de ir.

Sigo com o vento e ele me leva em suas entranhas, carregando em seu ventre lágrimas, desabafos, tapas na cara, mágoas e todo o peso que não preciso mais aqui.

Quero apenas uma palavra para rimar comigo… E, se a escuta estiver aguçada – em meu íntimo – certamente a estrofe será perfeita!