Retratos, 10

10

Após certo tempo, penso que aprendi a delinear o meu cotidiano, superando a distância física com a força que emerge do coração…

Definitivamente, as horas lá fora não correm da mesma maneira que no meu imaginário… E acho bom que seja assim, pois me permito viajar para perto de G., sem precisar de passagem de ida…

Visito os cafés apreciados por nós ao final da tarde… corro os olhos pelas livrarias imensas a alucinarem a minha paz… Percorro o seu universo, tão familiar e amável ao meu universo: ruas, árvores, restaurantes, parques, caminhos… sim, caminhos… de algum modo, eles aplainam o meu ser não-linear.

Ensaio longos suspiros ao abraçar na memória os lugares que envolvem o cenário dela: esquinas e tracejados tão caros e reconfortantes, que hoje já me pertencem tanto… Muitas de minhas entregas ainda reverberam por aqui, mas acredito que juntas possamos, agora, entender melhor as entrelinhas de cada um dos meus enredos!

Há mistérios que necessitam se manter ocultos, ao menos até conseguirmos revelar sua essência a nós mesmas… Mas, confesso ter sido sempre um um alívio contar a G. tantas lágrimas e virar páginas fundamentais dentro da minha (nossa) história.

São pretéritos que elucidam o meu jeito de viver e agir… E, a partir disso, ganho novos ares para desenhar o meu próprio destino.

*Este texto é parte integrante da Coletânea “Retratos”, publicada em dezembro de 2014, em formato artesanal, pelo selo Plural Scenarium.

Retratos, 09

09

Já se passaram alguns anos desde que precisei retornar ao meu suposto aconchego, abandonar a vida que tanto me seduziu em New Jersey e seguir caminhos por aqui… Mas, uma vez que minha afinidade com G. dispensa segredos, hoje confesso: minha bagagem ficou por inteiro com ela.

Eu não queria nunca ter que regressar, mas cá estou, em meio a este eterno trânsito interno de desejos e obrigações …Talvez a alma nunca se acostume a essa realidade dos fatos, mesmo fingindo muito bem…

Sempre que necessitei voltar, a chegada foi envolta por reencontros amistosos, como de praxe, ainda que New Jersey se mantenha sempre em mim, feito batida estridente de um relógio antigo… Tornou-se impossível ignorar as lembranças que aprenderam a fazer morada aqui dentro.

Em meio a diversas chegadas e partidas, costumava aproveitar as estradas de volta para casa e acertar o meu ritmo interior… Tarefa insana? Não me furtava a ela… Encontrei no íntimo um equilíbrio entre o antigo e o recente, dividindo o mesmo espaço no pulsar do coração. De imediato, partia para desenhar as tarefas cotidianas e, … necessitava pensar enquanto me permitia tal feito!

Durante um bom tempo, a saudade doeu muito… Depois, um pouco menos.

Hoje em dia, quem sabe…?

*Este texto é parte integrante da Coletânea “Retratos”, publicada em dezembro de 2014, em formato artesanal, pelo selo Plural Scenarium.

Retratos, 08

08

Eu não sei ao certo delimitar o que sempre fez parte de mim… e o que passou a existir somente após a chegada de G. – surge em meu pensamento apenas uma espécie de ruptura entre o que posso chamar de vida e de não-vida…

A não-vida caracterizava a primeira existência que me habitava: ausência de sons – silêncio mortal. Inércia de sentidos. Não havia motivos para ser coisa alguma e, ao longo das horas que se passavam, a perspectiva era apenas uma: fechar-me dentro de mim…

A vida que nasceu através de G. – em cada um de seus singulares gestos – me trouxe a crença num universo do lado de fora… Em um abrir-se para possibilidades… Foi ela que despertou em mim o gosto por tantos infinitos prazeres – cultura, música, leitura, culinária, sexo, arte…

Ao seu lado, aprendi que viajar seria uma atitude absolutamente necessária, caso eu realmente quisesse expandir meus horizontes…

Hoje, quando finco meus pés no chão – um passo após o outro –, levo comigo as lições que G. deixou em minha derme, feito tatuagem… Há em mim um forte desejo de ser seu orgulho, pois sei que – lá atrás, um dia – foi ela que me mostrou que eu também podia sonhar…

*Este texto é parte integrante da Coletânea “Retratos”, publicada em dezembro de 2014, em formato artesanal, pelo selo Plural Scenarium.

Retratos, 07

07

A adolescência bateu levemente à minha porta e, em paralelo, eu conseguia ver algumas vontades de menina começando a florescer em segredo… Nesse período, as janelas do meu quarto eram abertas com frequência e já não havia mais tamanha escuridão como antes.

Em certos momentos, por conta própria, eu me arriscava a ir à varanda para ver o sol se pôr, fazendo lembrar saudades… Foi então que, num desses dias aparentemente inesperados, meu pai me ofereceu como presente a oportunidade de ir até G., conhecer seu mundo e passar alguns dias de férias em meio àquele cenário…

Ao chegar à cidade-destino – New Jersey –, foi como se meus olhos tivessem o poder de dissolver tudo o que eu conhecia até então como realidade… G. me apresentou a movimentos surpreendentes, conduzindo-me pelo que não me pertencia, mas que pude tomar emprestado através das sensações agregadas por ela… a partir dali, tive uma certeza: nada mais seria como antes.

Caminhei de mãos dadas com G. ao redor de seu mundo… Um local com suas presenças, praças, cafés, livrarias… tratava-se de um cenário naturalmente comum, mas sem dúvida ofereceu cores novas ao meu coração, que não possuía outro porto onde ancorar suas vivências.

Em seguida, partimos a Nova York, o local onde ficava o seu trabalho… Ao lado de G., percorrendo aquelas ruas e avenidas, eu me reinventei em cada segundo… Aprendi a me misturar às pessoas e às paisagens de maneira tal que quase não volto para casa. Até hoje não sei se, de fato, algum dia realmente retornei…

Em dias de primavera, quando as flores insistem em espalhar suas pétalas ao entorno dos parques, enxergo a figura de G. – com seu sorriso único – a me apontar direções que ainda vibram intensamente aqui dentro… e talvez pulsem para sempre.

*Este texto é parte integrante da Coletânea “Retratos”, publicada em dezembro de 2014, em formato artesanal, pelo selo Plural Scenarium.

Retratos, 06

06

Os anos se passaram, trazendo uma aproximação natural entre mim e G., que agora não se dava mais apenas em suas vindas ao Brasil, mas sim através de cartas, e-mails e telefonemas… Tentávamos encontrar maneiras de sanar as lacunas provocadas pela distância, ainda que a saudade – ao menos por aqui – se fizesse sempre presente…

O calor do seu abraço me trazia conforto, provocando dentro de mim o sentimento sincero de que “tudo iria ficar bem”… Mas, a proteção que vinha dela não era a mesma que eu recebia de outras pessoas: enquanto me acolhia, também me entregava ao mundo, para que eu corresse riscos, experimentasse o novo e chegasse, enfim, a vivenciar aquilo que nunca antes me permiti.

Seu aroma era vivaz, sempre foi… Apesar da diferença da idade, eu a vislumbrava tão jovem que, por vezes, idealizei que pudesse ser eterna… Como eu desejei, em sonho e realidade, tê-la todos os dias junto comigo! Talvez essa tenha sido uma das minhas mais profundas aspirações ao longo de todo o caminho…

Ela me entregou a vida… e eu já não sabia mais como realizar contornos que me dissociassem de sua existência…

*Este texto é parte integrante da Coletânea “Retratos”, publicada em dezembro de 2014, em formato artesanal, pelo selo Plural Scenarium.

Retratos, 05

05

Os dias seguintes se apagaram da minha lembrança, ainda que eu tente me forjar a rememorá-los. Não me ocorre como foram as primeiras trocas – nem ao certo de que modo se estabeleceu o nosso vínculo mais íntimo. Tudo o que sei é que, pouco a pouco, abri meu coração para ela como nunca havia aberto a alguém.

Minha avó passou a se recuperar em casa e eu ia visitá-la aos finais de semana. A essa época, também, G. vinha cerca de três vezes por ano ao Brasil e, então, tínhamos a oportunidade de ficar um pouco juntas, intensificando o contato…

Ela foi a primeira pessoa que, com seu jeito manso e, ao mesmo tempo, um pulso firme, tirou-me do casulo e me convidou a conhecer as ruas de São Paulo. Esses instantes eu nunca apaguei do meu baú de recordações, e os levarei comigo até o fim dos dias…

G. me levou à feira livre, permitindo-me sentir o aroma das frutas, tocá-las, apertá-las e experimentar o seu sabor, deixando todo aquele medo que me habitava em segundo plano…. Fazia-me carregar sacolas e mais sacolas no trajeto, entregando-me a possibilidade de ser-no-mundo, de sentir um cansaço que não vinha mais da simples existência, mas sim por realizar algo realmente útil e prático…

Lembro-me também da primeira vez em que fui com ela a um sebo de livros. Eu jamais poderia imaginar que existisse um lugar assim… até então, só haviam me apresentado a livrarias… Ao adentrar aquele espaço, com suas inúmeras prateleiras repletas de relíquias, meu imaginário voou longe e eu me senti como se finalmente houvesse encontrado um lar… Poderia passar horas ali, folheando páginas e desvendando universos, de modo a desenhar a extensão de um horizonte só meu…

Ao chegar a casa, as broncas se estendiam por algumas horas… Os livros presenteados por G. ganhavam denominações várias: sujos, empoeirados, antigos – entre tantos outros atributos descabidos, mas que não permitiam ao instante perder o seu devido encantamento…

Um mundo novo se construía a partir dali… e a história havia apenas acabado de começar…

*Este texto é parte integrante da Coletânea “Retratos”, publicada em dezembro de 2014, em formato artesanal, pelo selo Plural Scenarium.

Retratos, 04

04

Naquela mesma noite, a porta se abriu… trazendo a figura de G. – com suas feições acobreadas, cabelos lisos, curtos, uma fagulha de cor junto à sua pele branca. Mulher esguia, de movimentos certeiros e curvas bem delineadas… desde a sua chegada, cada uma de suas ações repousou em meus olhos, reverberando em todo o meu corpo.

Ela se fazia bem semelhante ao que eu tinha visto, até então, nas poucas fotos que haviam tocado o meu olhar… Apesar das preocupações que percorriam o seu entorno, e do cansaço pelas horas de voo, G. estampava um suntuoso sorriso no rosto… bem depois, eu viria a descobrir que essa seria uma de suas características mais marcantes: “a arte de sorrir cada vez que o mundo diz não”…

Não me lembro de tê-la recebido com um abraço, talvez apenas um beijo no rosto ou coisa assim… Como já era de costume, eu não sabia de que maneira me portar. Apenas busquei capturá-la por inteiro, com tudo o que meu olhar tinha potencial de sorver… Gestos, palavras, risadas, trejeitos, tiques, manias, costumes… ufa!

Havia toda uma mesa de lanche para servi-la, com pães, frios, café, leite e outras iguarias preparadas por minha mãe… “Hummmm… Pãozinho do Brasil!”, ela exclamou, ao provar o pão, aparentemente, depois de muitos anos sem fazê-lo.

Os sinais que G. emitia se mostravam de uma naturalidade muito alheia àquela que eu estava habituada até então… havia certa liberdade em seu existir que me soava quase irreconhecível – e, não raro, suas premissas causavam em mim uma mescla de espanto, admiração e… vida!

*Este texto é parte integrante da Coletânea “Retratos”, publicada em dezembro de 2014, em formato artesanal, pelo selo Plural Scenarium.

Retratos, 03

03

… era uma tarde como qualquer outra, vivida a bordo de meu universo particular… o ambiente se mostrava ainda mais frágil, com parentes se mobilizando ao redor da matriarca da família, que pedia cuidados. Eu sucumbia, encurvando os ombros, reduzindo-me ao meu lugar inerte, como se a doença fosse também qualquer espécie de coisa minha. 

Em meio ao que era tormento, uma novidade: “sua tia dos Estados Unidos está vindo para o Brasil… arrume seu quarto!”.

Fiz minha cama… juntei rapidamente os papéis espalhados sobre a mesa, e, num gesto corriqueiro, sentei-me com as mãos cruzadas sobre o ventre… o corpo arqueado – em estado de espera – aguardando a vida se pronunciar…

Sabia tão pouco… e o mistério acerca de uma pessoa que vivia fora do meu alcance, sendo apenas um nome em meio às notícias – deixou-me inquieta.

Tentava, sobremaneira, entender os diálogos colhidos pelos cantos da casa, ao longo dos dias: “ela é a ovelha negra da família…”, diziam, como se a acusassem de algo, julgando-a sem limitações… e eu, apenas a observar ao lado, recolhendo-me em estranhamento e medo!

*Este texto é parte integrante da Coletânea “Retratos”, publicada em dezembro de 2014, em formato artesanal, pelo selo Plural Scenarium.

Retratos, 02

02

O quarto se fazia sombrio e as janelas possivelmente não eram abertas todos os dias… não entendia, ao certo, qual era o significado de se abrir uma janela – me acostumei ao escuro, onde permanecia… na companhia de uma luminária que levava sua nesga de luz às letras, com as quais eu passava a maior parte das horas…

Um punhado de gibis, livros e cadernos de pauta em branco… espaço em que costumava escrever cartas às pessoas que me eram caras. Era a minha maneira de distribuir afeto e, também, de me distrair em meio aos minutos que insistiam em se demorar aos meus olhos…

A televisão – ao lado, com suas luzes coloridas – me permitia ficar em silêncio, apenas observando aquele sem-número de imagens… a partir delas, toda uma realidade reluzia sob a minha escuridão. Era sem propósito o que eu via, mas – de algum modo – se fazia seguro e confiável.

Desconhecia o mundo real das coisas, onde transitava por parcas horas – a caminho das aulas – numa espécie de brecha que se abria na minha existência… um tempo sofrivelmente interminável.

Eu pouco olhava para fora, para os lados… porque as coisas ao meu redor se ofereciam como sendo estranhas e perigosas. Tudo que eu sentia era medo…

… até ela chegar…

*Este texto é parte integrante da Coletânea “Retratos”, publicada em dezembro de 2014, em formato artesanal, pelo selo Plural Scenarium.

Retratos, 01

…”não sei dizer quando é que acontece de ‘crescermos’. Acho que ninguém sabe. Sei apenas que não é algo repentino. Não é um estalar de dedos. Um passe de mágica… é gradativo! Tenho pra mim que é algo que vai acontecendo aos poucos… cada atitude nossa é determinante. Cada passo dado gera uma possibilidade, mas acredito que, se você ficar parado, um vento forte vem em sua direção e, te obriga a qualquer coisa de movimento… Absolutamente tudo, no mundo, nos afasta de nós mesmos… nos manda embora, pra longe daquele ‘eu’ que somos ou que pensávamos ser. E assim nos transformamos em outra coisa… é nossa ‘pequena epifania’.”

– Lunna Guedes – In: Lua de Papel, p. 233 –

01

Quando o tempo presente deixa de lado os seus excessos e exigências, eu viajo junto às minhas lembranças… é justamente quando as saudades invadem o meu peito e eu sigo secretamente até vilarejos e esquinas mágicas, nas quais posso simplesmente existir…

Alguns detalhes, no entanto – infelizmente – me escapam. Eu tento puxá-los pela memória, mas são como grãos de areia a escorrerem por entre os dedos.

Insisto… porque preciso disso para saber quem sou, feito pontos que se interligam para definir o meu retrato… me dê a mão e venha comigo, perfazendo os caminhos desta história… 

*Este texto é parte integrante da Coletânea “Retratos”, publicada em dezembro de 2014, em formato artesanal, pelo selo Plural Scenarium.