Morangos à beira do abismo

Conheci Rubem Alves nos tempos de adolescência… em trechos lidos em cartas, diários e, também, em livros… suas palavras simples e fáceis me alcançaram de tal maneira que era como se ele fosse capaz de exprimir tudo aquilo que minha alma tinha o desejo de dizer ao mundo…

Anos mais tarde, esbarrei – por sugestão de uma amiga escritora – nos livros do autor… e me deparei com uma singeleza que, dificilmente, eu encontraria em outra ocasião-pessoa-lugar…

Juntas, partilhamos impressões sobre a amplitude de pensamento, o estilo de escrita e os temas escolhidos por Rubem Alves… em uma espécie de viagem mágica, na qual optei por embarcar apenas com passagem de ida!

Desfiz 75 anos me apresentou a um compilado de crônicas do autor, que usou o livro para celebrar seus 75 anos de existência… geralmente nos referimos a fazer anos, e não a desfazê-los… mas o mestre nos explica: à medida que o tempo passa e a morte se aproxima, seria inegável – para ele – admitir que cada aniversário se torna um ensaio de despedida, uma espécie de adeus…

A gente vira a página e aprende… com suas citações, com os títulos escolhidos e, principalmente, com tudo o que escreve. Em “Morangos à beira do abismo”, Rubem Alves traz a história acerca de um rapaz que fazia uma caminhada pela floresta quando, repentinamente, escutou o barulho de um leão. O homem teve grande pavor e se pôs a correr, mas a floresta era fechada, o que fez com que ele caísse em um precipício. Em estado de desespero, agarrou-se a uma raiz de árvore, que saía da terra, permanecendo pendurado sobre o abismo.

Ao olhar para frente, na parede do precipício, parecia crescer um pé de morangos, no qual havia um moranguinho, gordo e vermelho, ao alcance das suas mãos. O rapaz se sentiu encantado e, então, colheu o morango, esquecendo-se – por um instante – de todo o resto. Degustou o fruto… delicioso, e sorriu, sentindo-se grato de que existissem, na vida, morangos à beira do abismo…

Essa pequena história me trouxe uma certeza epistolar… de que, a cada manhã, viver torna-se verbo infinitivo no instante em que o sol nasce em minha janela. Estou o tempo todo à beira do abismo (quem não está?), mas existe sempre um morango para saborear que, no momento, atende pelo nome de: “o amor que acende a lua”…

*Texto publicado originalmente em junho de 2015, na Revista Plural Rubem, pelo Selo Artesanal Scenarium, com edição e coordenação de Lunna Guedes.

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A fratura exposta a minha sombra

Outro dia, pensando acerca do que motiva a escrita de cada um de nós, algumas lembranças me guiaram até os tempos do curso de psicologia, quando o professor de ‘teorias da personalidade’ buscava explicar como o ser humano busca diferentes maneiras de lidar com cada uma de suas vivências.

Segundo ele – embasado à época em teorias psicanalíticas – certos fatos marcantes do cotidiano necessitam ser experenciados em suas profundezas, de modo que se esgotem e o indivíduo possa, a partir de então, elaborá-los com maior facilidade. Assim, uma vez passado o impacto traumático dos acontecimentos, provavelmente se tornaria, também, mais fácil pensar e falar sobre eles.

Recordei também um diálogo que tive há dias com uma amiga escritora-psicanalista – conhecedora da teoria e da prática em sua imensidão –, em que falávamos sobre os simbolismos que os fatores do ambiente agregam às nossas vidas. Ela me fez lembrar de que a teoria psicanalítica tende a tratar os dramas e os infortúnios do homem como algo externo, indireto… é mais ou menos como ser atingido por um raio.

E, nesse sentido, para ela, a escrita inserida no contexto psicanalítico é tratada como sendo um objeto de segurança, uma vez que o indivíduo se aconchega em algo familiar que o leva a escrever, sentindo-se confortável para expor-se. Não é à toa que observamos tantos escritores solitários e que, nesse meio, a depressão seja um objeto tão comum.

Voltando ao ponto inicial de minha reflexão – as motivações da escrita –, penso que necessitamos, sim, lidar com certos conflitos ao longo da vida, seja conforme o olhar das teorias psicanalíticas ou de suas variações. Porém, quando se trata de expor sentimentos e falar do que vai no coração, alguns escritores o fazem ainda melhor quando sua fratura pessoal ainda está exposta… porque, na verdade, ela nunca será elaborada por completo.

Finalizo com outro afago dessa mesma amiga escritora-psicanalista, que – sem sombra de dúvidas – permitiu o entrelace de diversos conceitos anteriormente soltos em meu pensamento…

…”eu, particularmente, acredito que a escrita é experimentar velhos sabores, os da infância, que são insubstituíveis, tanto quanto inesquecíveis. A realidade não nos permite superar tais aromas, mas o imaginário não apenas transcreve, como nos permite, aliado à criatividade, reviver milhares de vezes, como se tivesse acontecido há pouco, porque escrever e ler são atribuições de símbolos, como beber uma xicara de café. Sempre nos leva para dentro, para o conforto da primeira vez.”

*Texto originalmente publicado na Revista Plural Solombra, em abril de 2014, pelo selo artesanal Scenarium. Conheça mais em: http://scenariumplural.wordpress.com/.

Minha carta à Emily…

“Tudo o que sabemos do amor, é que o amor é tudo que existe.”

– Emily Dickinson –

Sob influência da caríssima amiga Lunna Guedes, que sempre me desperta rumo a ideias interessantes e dinâmicas, fui chamada a um novo desafio.

Uma das últimas edições da Revista Plural – projeto do qual tenho a honra de participar – teve em meio às suas temáticas uma série de missivas inspiradas na poeta americana Emily Dickinson.

O conceito era que cada remetente compusesse a sua carta destinada a uma Emily imaginária – ou à própria escritora em si.

Abaixo, seguem as linhas que arrisquei traçar…

Minha querida Emily,

Há diversas expressões de sentimentos que gostaria de compartilhar com você nesta missiva. Algumas delas, eu confesso, até desconheço a respeito de mim mesma.

Mas, apesar de, por vezes, não ter a percepção de tais intensidades em meu íntimo, entrego todo esse sentir às suas mãos no dia de hoje.

Acho mesmo que conseguimos nos traduzir bem mais com o auxílio do olhar do outro, do que se partirmos apenas de nossas próprias conclusões.

E, confesso a você, cara Emily… Minhas entranhas têm andado um pouco ofuscadas devido aos acontecimentos mais recentes do cotidiano – ainda que eu busque manter certa vivacidade sensível e uma direção atenta às belezas da vida.

Quando a dor chega, ela pode vir a camuflar, em alguns momentos, a nossa essência que, por natureza, teria tudo para ser alegre e repleta de otimismo.

Minha tarefa, ao longo deste emaranhado que é o universo, tem sido retirar os possíveis véus que encobrem a transparência e a emoção do sentir.

Emily, querida alma que traduz minha essência: clamo-te por ajuda em meio a linhas mal escritas, mas que englobam em si as mais puras intenções de afeto, compreensão e desejo de diálogo.

Por favor, auxilie-me a não evitar o contato com aquilo que realmente importa – dentro e fora do meu eixo.

Permita-me ser mais. Deixe-me sentir lá fora a serenata cantante dos ventos.

Mas, suplico: entrelace seus dedos junto aos meus e não me perca de vista.

Pois eu… eu também não posso me perder de mim.

Tatiana Kielberman