No instante da lembrança…

…“Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre”…

| Mia Couto, in: ‘Raiz de Orvalho e Outros Poemas’ |

Ainda me lembro – como se fosse hoje – do meu despertar naqueles dias… Eram manhãs amenas, em que o sol espreitava pela janela, mas não se deixava entrar completamente devido à proteção das cortinas…

Abrir os olhos ao seu lado era como caminhar por um jardim repleto das mais lindas flores: um passo atrás do outro… o meu espreguiçar acompanhando o seu, sem que tivéssemos pressa em anteceder as pausas necessárias…

Eu não compreendia, ao certo, de onde vinha toda aquela mágica, mas algo era pulsante em meu coração: o pressentimento de que minha presença não caberia em nenhum outro abraço…

Assistia aos seus pés descalços andando pelo apartamento, despretensiosos como apenas eles sabiam ser… sem notar os sinais de fora, nem mesmo as chamadas abruptas dos tempo…

Eis que chegava o instante mais esperado – a culinária matinal – e eu me mantinha no lugar da criança que tão poucas vezes quis deixar de ser perante o seu olhar… Primeiro, as frutas com iogurte… Em seguida, as panquecas típicas… Tudo regado a um ritual bastante apreciado, sempre na companhia de velas e incensos cuidadosamente escolhidos…

Ainda hoje, mesmo passado tanto tempo, minha alma abraça esses instantes que ficaram na lembrança… e neles permaneço quando preciso reencontrar uma parte essencial de mim. São momentos que perfazem o meu espelho, o meu retrato mais fiel…

E me pergunto, em meio a cada pensamento-saudade-inspiração… qual será o seu lugar agora?

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Reconhecer-te

“Sempre haverá um porto. Um lugar que não precisa ser fixo, mas que, contrariando a lógica, é onde está o nosso alicerce. Nada é tão prazeroso quanto voltar a lugares de onde nunca saímos.”

— Fernanda Gaona —

Hoje eu voltei a me reconhecer em tuas palavras, como se elas nunca tivessem deixado de ser minhas. Por um singelo instante, abdiquei de ser espelho de meras expectativas, para me guiar enfim por um gesto real…

Fui abrigo de letras arriscadas, recebendo como eco um encontro necessário ao coração… aprendi que, por vezes, é preciso atravessar tempestades para conquistar um lugar ao sol.

Busquei fugir dos clichês e, ao som de tua voz, percebi que – de fato – nem sempre eles se fazem adequados… Rememorar o verdadeiro caminho que quero para mim – de mãos dadas contigo – abrandou qualquer possível lampejo deixado em mim pela solidão…

A originalidade do teu sorriso me comove–encanta–enobrece o sentido do que considero ‘viver’! E hoje entendo que desorientar-me – em tempos outros – foi apenas a chave essencial para que agora, neste exato momento, pudéssemos finalmente nos apresentar…

Eu nunca aprendi a me despedir…

“São só dois lados
Da mesma viagem
O trem que chega
É o mesmo trem da partida
A hora do encontro
É também despedida
A plataforma dessa estação
É a vida…”

[ Milton Nascimento ]

Partir nunca esteve – para mim – entre as tarefas mais simples da vida. É latente em minha memória a dificuldade que tive, desde pequena, para me habituar a essa (estranha) necessidade que a existência nos impõe…

Deixar para trás um punhado de coisas é algo trabalhoso não apenas ao corpo, mas também à alma: esvaziar-se de pessoas, sentimentos, instantes, sonhos, pensamentos, presenças, ilusões… e, por que não dizer, de toda uma realidade em si?

Talvez um leque interessante e precioso de lembranças ainda permaneça – muito vivo – no espaço da mente, até o fim da vida… até o momento em que nossos braços se mostrem extremamente frágeis para suportar bagagens envoltas em saudades…

Mas, havemos de concordar: nenhum suspiro ou recordação é capaz de substituir o valor da própria vivência em si. Passamos por cada história – assim como cada história passa por nós – e já não somos hoje os mesmos de antes.

O que carrego em meu peito é uma amostra. Um aroma… A fragrância daquela que busquei ser – com toda minha essência – dentro do presente que desejei eterno… e que, assim como chegou, também se foi, como um sopro.

Depois da partida, aprendo a remendar os passos, para que a caminhada se faça outra vez… Não há abertura para uma espera exacerbada: talvez apenas a lacuna entre a lágrima que escorre pelo rosto, e o tempo que levo para secá-la.

E, como se fosse a primeira vez – como se a dor nunca tivesse me visitado – negocio amigavelmente com aqueles que avisto chegar pela estrada. Preparo uma xícara de café… repouso o livro recém-começado sobre a cama… e preparo meus lábios para um longo beijo.

Afinal, nunca se sabe quando será preciso partir novamente…

Trago comigo um emaranhado de saudades…

“Quando partiu, levava as mãos no bolso, a cabeça erguida. Não olhava para trás, porque olhar para trás era uma maneira de ficar num pedaço qualquer para partir incompleto (…)”

[Caio Fernando Abreu]

Minha querida G.,

Ainda não se passaram vinte e quatro horas completas desde que retornei ao meu suposto aconchego… E, já que nossa afinidade dispensa segredos, confesso: minha bagagem ficou por inteiro aí com você. Eu não queria voltar, mas cá estou, em meio a este eterno trânsito interno de desejos e obrigações …Talvez a alma nunca me acostume a essa realidade dura dos fatos, mesmo fingindo muito bem se adequar…

A chegada foi envolta por reencontros amistosos, como de praxe, ainda que New Jersey se mantenha em mim, feito batida estridente de um relógio antigo… É impossível ignorar as lembranças que aprenderam a fazer morada aqui dentro. Hoje a saudade dói muito… Amanhã um pouco menos. Depois de amanhã, quem sabe…?

Aproveitei a estrada de volta para casa e tentei acertar o meu ritmo interior… Tarefa insana? Não me furto a ela… Encontrei no íntimo o antigo e o recente, dividindo o mesmo espaço no pulsar do coração. Amanhã já recomeço a desenhar as tarefas cotidianas e, você sabe… necessito pensar enquanto me permito tal feito!

Definitivamente, o tempo lá fora não corre da mesma maneira que no meu imaginário… E acho bom que seja assim, pois me permito viajar de volta aos lugares que amo, sem precisar de passagem de ida… Visito os cafés apreciados ao final da tarde… corro os olhos pelas livrarias imensas a alucinarem a minha paz… Percorro mundos familiares ao meu universo: ruas, árvores, restaurantes, parques, caminhos… sim, caminhos… de algum modo, eles aplainam o meu ser não-linear.

Ensaio longos suspiros ao abraçar na memória os lugares que envolvem o seu cenário: esquinas e tracejados tão caros e reconfortantes que hoje já me pertencem tanto… Muitas de minhas entregas a você ainda reverberam por aqui, mas acredito que juntas possamos, agora, entender melhor as entrelinhas de cada um dos meus enredos!

Não queria que você visse em mim uma imagem diferente da que tentei delinear durante todos esses anos. Entendo que a verdade talvez se mostrasse preferível, mas há mistérios que necessitam se manter ocultos, ao menos até conseguirmos revelar sua essência a nós mesmos. Foi um alívio contar a você tantas lágrimas e virar páginas fundamentais dentro da minha (nossa) história. Compartilhando o meu mundo, tenho a clareza necessária para seguir caminhando…

Espero que, ao retornar do aeroporto, você tenha reparado que deixei, junto ao aroma no travesseiro, uma parte do meu coração – talvez a mais verdadeira… Entreguei meu passado em suas mãos, para que você e New Jersey cuidem com carinho deste legado.

Não há mais motivos para fingir coisa alguma – e o significado dessa liberdade é tão grande que não caberia em palavras… São pretéritos que elucidam o meu jeito de viver e agir… E a partir disso ganho novos ares para desenhar o meu próprio destino.

Com enorme carinho, afeição e gotas salgadas de silêncio…

T.

*Este post é parte integrante do projeto “Caderno de Notas – Terceira Edição”, do qual participam as autoras Ana Claudia Marques, Ingrid Caldas, Lunna Guedes, Mariana Gouveia, Thais Lopes, Tatiana Kielberman e Thelma Ramalho.

Sobre as lições do caminhar…

‘E se eu chorar
E o sal molhar o meu sorriso
Não se espante, cante
Que o teu canto é a minha força
Pra cantar…’

– Gonzaguinha –

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Hoje, sem mais nem menos – talvez nem tão despretensiosamente assim -, minha mente se dirigiu a lugares antigos e tempos outros…

Sou uma pessoa que geralmente gosta de caminhar de mãos dadas com a saudade, ainda que o sentimento não se relacione diretamente ao instante em si, mas a todas as memórias que ele deixa após ir embora.

É por isso que não me importo em recordar momentos, sejam eles tristes, alegres, confortáveis ou dolorosos… Observo que cada segundo traz em si a carga emocional necessária para me fazer crescer, evoluir e ser melhor do que era antes.

Foi há pouquíssimo tempo que comecei a perceber isso. Até poucas etapas atrás, eu tinha a tendência de julgar as diversas peripécias da vida como se elas fossem oito ou oitenta: boas ou ruins demais.

A realidade é que cada obstáculo e vitória trazem em si a sua grandeza, além de uma sabedoria única. Nunca seremos os mesmos indivíduos após vivenciarmos determinadas situações.

Por mais que pensemos o contrário, há sempre algo que se transmuta. Que pede uma renovação. Que não se contenta em ser igual, porque pôde provar o sabor do diferente.

Entre um tropeço e outro, vou aprendendo a abandonar radicalismos e buscar minha essência. Sim, exatamente aquela, que nunca se paralisou. O íntimo da alma, que se propõe a utilizar todas as oportunidades para compreender o que há de mais bonito em si.

É provável que a estrada seja longa e as curvas um pouco estreitas… Mas uma coisa é certa: os sinais do coração raramente erram ao nos guiar.

Uma saudade…

“Aos olhos da saudade, como o mundo é pequeno…”

(Charles Baudelaire)

Ouso iniciar esta prosa no singular, mesmo sabendo que cada palavra escrita aqui engloba um universo de pluralidades que não poderiam ser traduzidas, muito menos explicadas. Apenas sentidas…

Guardo uma saudade no horizonte que cruza um tal território (des)conhecido em mim. É um sentimento grandioso, daqueles que não se consegue pesar nem medir com a exatidão dos números, seja com o auxílio da balança ou da fita métrica…

Bate em meu peito uma ausência dolorida, o sentimento sonhado de voltar no tempo em direção a um passado que, aos meus olhos, simbolizava libertinagem, profundeza, essência.

Talvez nem fosse tão melhor assim, ao se pensar racionalmente… mas, a alma sabe lá o que é razão?

Lembranças explícitas atravessam uma parte já esquecida da memória, dando vazão ao que já se sabia antigo, porém – de alguma maneira – sempre consegue soar como surpreendente.

Sim, há aqui uma saudade engasgada, sozinha, órfã de pai e mãe – mas que se reproduz a passos largos, não tem medo do que fará o coração sentir.

Sente. E ponto. O outro é que se vire.

Observo a pretensa leveza na suavidade do agora e isso me remete ao sótão de mim. Onde andarão as poeiras? Como pude esconder as migalhas em locais tão ocultos, quase invisíveis?

Tenho saudade daquilo que queria agarrar e não consigo, por escassez de força ou, quem sabe, falta de fé no recomeço… Logo eu, que me considero das mais otimistas, debato-me em entraves quando o assunto é demasiadamente torto ou me afugenta o espírito.

Não, não ousaria compreender de onde foi que deixei surgir o pensamento solto ou brotar a passagem lenta das horas.

Hoje, só me sei saudade…