O tempo das horas, o tempo da alma…

“Tenho as opiniões desmentidas, as crenças mais diversas – É que nunca penso nem falo nem ajo… Pensa, fala, age por mim sempre um sonho qualquer meu em que me encarno no momento.
Vem a fala e falo-eu-outro. De meu, só sinto uma incapacidade enorme, um vácuo imenso, uma incompetência ante tudo o que é a vida. Não sei os gestos a acto nenhum real.
Nunca aprendi a existir.”

| Fernando Pessoa, ‘Inéditos’ |

16 horas. O relógio anuncia a passagem da segunda-feira e de toda sua gente apressada-atrasada-avoada-sufocada-suprimida… São dias comuns ao recomeço, ao tentar de novo e, quem sabe, conseguir…

Dar vazão a projetos deixados para o instante seguinte, engolir um medo aqui e outro acolá… vida real que nos chama de volta a cada novo segundo.

Para mim, as segundas-feiras têm sempre esse ritmo de possibilidade, de outra chance… Confesso que – se pudesse – gostaria de decretar este como o meu dia oficial de férias da semana. Não é exatamente uma ideia minha… mas apreciei muito as premissas que a envolvem!

Deixar as obrigatoriedades de lado… dedicar boa parte do tempo aos meus escritos preferidos… deleitar-me por algumas horas a mais de preguiça na cama… comer bolo de fubá acompanhado de cafezinho fresco… caminhar sem rumo, correndo o risco de encontrar respostas a perguntas que eu nem sabia ter…

Só por hoje, sinto o entardecer e suas nuances se aproximarem e, curiosamente, não estou tão atrasada assim…

Anúncios

Os meus olhos se abrem e… sou outra!

Não conseguiria afirmar com precisão o ponto em que as coisas mudaram: até ontem, o céu nublado pesava absurdamente sobre minhas entranhas. As ruas atropelavam qualquer tentativa de passo vagaroso, enquanto o corpo parecia pender ao chão, num total desequilíbrio de mim. Mãos, braços, pernas e pés se mesclavam a um desgosto inerente em meu âmago… O que se fazia mais denso – de fato – eu não sei.

Mas… vi nascer a manhã, alheia à minha vontade. Despertei num espasmo e ela estava aqui, convidando-me a viver as horas, como se tudo existissse pela primeira vez. Nenhuma novidade concreta ao meu redor, mas qualquer coisa de fingimento – às vezes – ajuda a suportar a fúria da solidão. Fechei timidamente os olhos, como quem se prepara rumo a uma surpresa… contudo, quando os (re)abri, notei que a paisagem a me chamar não vinha do entorno. Era o coração que aguardava – talvez – ser desadormecido por um leve afago da alma…

Para a segunda, uma xícara de café…

“Tudo o que vemos ou parecemos / não passa de um sonho dentro de um sonho.”

– Edgar Allan Poe –

Eu já desejei que a semana tivesse sabor de novidade, cheirinho de terra molhada e, se possível, também algum traço de alegria.

Mas, realmente, tenho consciência de como seria saúdavel modificar esse repertório de aspirações e vontades demasiadas, talvez ilusórias… Ou, pelo menos, não mantê-lo sempre igual.

A verdade é que, às vezes, o meu vocabulário se torna escasso e preciso tomar emprestadas certas palavras que traduzam o meu sentir.

Do mesmo modo, ando precisando me utilizar de outras cores e olhares que complementem a minha perspectiva de caminho – em muitos instantes, tão limitada…

Minha ânsia se refere a voar ao longe, avistar outros horizontes, perder-me em labirintos ousados.

E, de quebra, penso que seria bênção poder fugir de mim, já que no espelho quase não me reconheço.  Somos estranhos uns aos outros: o corpo, a alma e eu.

Não sei se um dia, de fato, seremos congruentes. Talvez tenhamos nascido para divergir – e seja essa a graça da vida.

Hoje – e só por hoje – cansei de procurar respostas para perguntas que ainda não fiz. Esgotei-me de cansaço pelas verdades que insisto em dizer e nas quais nem acredito.

Nesta segunda-feira, preparo apenas a minha xícara de café quente, como um gesto de inspiração à semana que virá… E recebo o dia com o que ele agrega de mesclas e nuances.

Afinal, há tanta luz lá fora… Seria um desperdício ignorar a sedutora e bonita paisagem que me convida a viver.