Das sensações que me invadem…

Uns, com os olhos postos no passado,
Vêem o que não vêem: outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, vêem
O que não pode ver-se.

Por que tão longe ir pôr o que está perto —
A segurança nossa? Este é o dia,
Esta é a hora, este o momento, isto
É quem somos, e é tudo.

Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto
Em que vivemos, morreremos. Colhe
O dia, porque és ele.

Ricardo Reis, in “Odes”
(Heterónimo de Fernando Pessoa)

Gosto do sentimento que nasce enquanto percorro as ruas temperadas por um clima ameno, tão ou mais familiar que minha própria alma…

Decerto, o desejo era estar absorta no aconchego do meu apartamento, mas uma vez que isso não é possível, busco apreciar as paisagens que tocam gradativamente o olhar.

Não há quase pessoas em volta; é como se a vinda de uma leve garoa e do tempo aparentemente fresco tivesse levado cada um para dentro de seu próprio casulo

Temperaturas mais frias combinam com tardes enroladas no edredon, filme antigo passando na TV, pipoca, livros espalhados pela cama, chá de frutas silvestres e, claro, um bloco de notas repousado sobre o criado-mudo, para quando a inspiração vier…

A impressão que tenho é de que cada uma dessas delícias insiste em fazer morada em meu íntimo, levando-me a crer que, enquanto o corpo caminha entre as esquinas e desvia a atenção para fora, a alma já está em algum lugar bem distante daqui, olhando preferencialmente para dentro…

Usufruo o deleite de não precisar apressar o passo. O andar se faz sereno e eu levo meu copo de café nas mãos, como se estivesse envolta por uma paisagem europeia, rústica – em que as folhas caem da árvore e conversam longamente com o asfalto urbano…

Talvez seja muita pretensão de minha parte afirmar que o clima tornou a a ser nosso amigo e se manterá assim pelos próximos dias, mas não posso negar que tal afirmação compõe uma das minhas vontades mais sinceras…

É como disse uma grande amiga minha: desde o último sábado, quando a temperatura decidiu oferecer sua trégua, eu me enclausurei em meus espaços, quase como uma velhinha inglesa que apenas deseja degustar sua xícara de chá… Afinal, para que eu desejaria mais?

Aprecio muito quando as horas oferecem o melhor de si em minha direção.

E, ultimamente, tudo o que também almejo é me demorar suficientemente em cada uma delas

Presságios…

soltando os pássaros

Há sussurros de desejo percorrendo o meu olhar, a cada vez em que me deito buscando respostas para perguntas que ainda nem formulei…

Restam lugares para perceber a vibração do que não se pôde pensar – e também para refletir a respeito daquilo que eu não ousaria transpor em sensações.

Busco espaço, ganho tempo, tenho sorte. Talvez não seja muito, mas é bem provável que perpasse o suficiente.

Não ouso sair tanto de mim, nem por um segundo. E, ainda que eu fuja em muitos momentos sem saber, volto a perder-me em rumos infindos e desnorteadamente sãos.

Às vezes, penso ser bom e saudável iludir-se na contramão da vida, pois acabamos por retornar um pouco mais sábios e convincentes de nossos reais sonhos.

Nem sempre surge a coragem de assumir o querer em sua genuína origem. Mas tentamos ao nosso modo, pelo caminho que conhecemos… em letras, melodias e sensações.

Um dia, sem mesmo notar, certamente já teremos conseguido ir muito mais além.