Do que não se diz…

Não é necessário sair de casa.
Permaneça em sua mesa e ouça.
Não apenas ouça, mas espere.
Não apenas espere, mas fique sozinho em silêncio.
Então o mundo se apresentará desmascarado.
Em êxtase, se dobrará sobre os seus pés.

[ Franz Kafka ]

Hoje não vim falar de suas letras perenes, nem da sagacidade que emana de cada um de seus gestos… Escrevo este punhado de frases – ligeiramente tortas, meio sem jeito – porque algo maior desencadeia uma profunda gratidão em mim:

…o seu silêncio.

Uma quietude que abranda minha própria voz, fazendo com que eu me ouça com a devida atenção, antes de deixar que a ansiedade conduza a palavra seguinte.

Aquela leve pausa para que o sentimento verdadeiro se expresse, sem amarras… isento dos véus ferozes que a rotina exige.

Um cerrar de lábios que não se faz rude… muito pelo contrário: é terno… suave como uma brisa que chega ao olhar para trazer conforto, oferecendo ares de sossego.

Tranquilidade misteriosa imersa em sensatez, como se nela tudo coubesse… como se dentro de sua mente todas as viagens fossem possíveis, em questão de segundos…

Ao mesmo tempo, falo aqui de um silêncio que não agrega nenhuma espécie de julgamento ou dedos em riste… Há tão somente a discrição de ser quem se é.

Admiro a sabedoria com que sua alma repousa a fala em um comedimento que não arrebata. Não invade, nem ameaça… apenas nos faz pensar. Ponderar o instante.

Olhar para dentro… esta tarefa insana que a vida já te ensinou há algum tempo, e que você – com sapiência e ternura – não se furta a dividir com quem caminha ao lado.

Através das palavras chegamos até a sua figura, é certo… Mas é pela breve ausência delas que você nos permite conhecer… e (re)construir.

Anúncios

Sábia quietude…

Outro dia, eu te disse despretensiosamente – em meio aos nossos diálogos acompanhados de café – que você costuma me oferecer muitos conselhos em silêncio… e, mais curioso que isso: eu tenho a estranha mania de segui-los!

Senti seu olhar de interrogação diante de mim, como quem quisesse – de fato – compreender o significado de minhas palavras… Mas, em seu íntimo, certamente o entendimento já havia encontrado um lugar de conforto, afinal, quietude e silêncio são substantivos que traduzem você em um sem-número de vocabulários…

Acho que já tive a oportunidade de te confessar: apenas me encanta o relacionamento com uma pessoa se ela é capaz de despertar o melhor e o pior que tenho em mim. O melhor, que me lembre para onde voltar nos momentos difíceis, de descrença… E o pior, para que eu nunca me sinta completa, a ponto de arriscar interromper minha construção interior.

Através de seus sábios conselhos calados – porém, imensos em amplitude e sabedoria – você não só me redime de possíveis falhas, pelas quais aprendi a me culpar “a troco de nada”… mas também me mostra que há uma infinidade de caminhos que não percorri. Apenas porque não me possibilitei dar o passo à frente.

Eu sei que todas essas verdades encontrariam um modo de chegar ao seu coração, ainda que não fossem expostas em palavras…  Mas, quem foi mesmo que incentivou o extravase pela escrita?

Cá estou…

Dissabores

Que esta minha paz e este meu amado silêncio
Não iludam a ninguém
Não é a paz de uma cidade bombardeada e deserta
Nem tampouco a paz compulsória dos cemitérios
Acho-me relativamente feliz
Porque nada de exterior me acontece…
Mas,
Em mim, na minha alma,
Pressinto que vou ter um terremoto!

[Mário Quintana, ‘Confissão’]

Tenho feito mais silêncio que o usual: talvez por perceber que, ao deixar a voz exibir seu ritmo comum, o que reverbera causa estranhamento a quem não reside na morada que habito.

Externar meus desconfortos sem me mostrar arisca é tarefa insana, quase impossível a uma alma rebelde dentro de um corpo em constante repreensão.

A repulsa surge como resposta automática ao espaço do outro – defesa sombria a exageros que me assolam – e, a cada passo turvo, eu me delineio em conflito com aquilo que pensava acreditar até o instante presente…

Confesso: meu repertório está cada vez mais escasso para alcançar a estranha mania que as pessoas têm de palpitar acerca da quietude alheia, julgando conhecer os dramas de quem se aproxima.

Causa-me arrepios a propriedade com que se apoderam daquilo que vai dentro de qualquer ser humano, sem ao menos experimentar de suas paixões, medos, inseguranças, angústias… de seu universo, enfim.

Não é novidade que escutar a pausa que vem de fora – do próximo que está ali, à beira da esquina – pode ter um sabor amargo quando vamos ao encontro de nossas próprias incompreensões.

O espaço branco do silêncio se faz amplo: nele cabe o desgosto de toda uma existência… e mais.

Vez ou outra, é preciso respirar alguns silêncios…

“… tudo o que vemos ou parecemos
não passa de um sonho
dentro de um sonho …”

[Edgar Allan Poe]

Há um tempo – considerável – e isto já não precisa mais ser um segredo -, a menina tem se perdido vagarosamente por aí, em cantos sombrios de medo… Não sabe bem quem ela é – nem de onde veio, muito menos qual caminho deseja seguir a partir do lugar em que se encontra.

Existem pontos de interrogação em sua morada… muitos deles. Se ela pudesse escrevê-los, faria cada sinal de um tamanho – de tão diferentes que se organizam em sua embaçada lembrança…

É como se as horas passassem mas, de alguma maneira insólita, tudo permanecesse desconfortavelmente igual. Na linguagem comum – inodoro, incolor e insípido – feito a água em sua forma original. Ela acrescentaria, ainda, o adjetivo ‘insosso’… porque é assim que também vêm transcorrendo os dias aos seus olhos, principalmente de uns meses para cá.

Talvez o fato crucial não tenha a ver com o ambiente externo, com o que surge do outro e tantas vezes provoca rupturas inevitáveis – mas sim consigo mesma. Com a imagem que avista a cada manhã em frente ao espelho – e que tão pouco lhe diz sobre sua essência.

A menina não se reconhece mais nas curvas que a roupa desenha em seu corpo. Não encara o sorriso com a autenticidade que lhe era comum até um período atrás. O máximo que consegue abstrair de sua existência são as sentimentalidades – estas, se assim pudesse traduzir, confusas à mesma proporção que um novelo de lã emaranhado em suas diversas linhas…

Mesmo sangrando, à flor da pele – a dor nascida em seu peito ainda se faz colorida – não apenas multiforme e insana. Deixou de haver uma continuidade no sentir da menina: ela apenas vive o que pode… cada detalhe do que consegue aguentar.

E, confessa a si mesma – apenas no instante de encontro com seu travesseiro – tudo tem sido pesado demais. Excessivamente agressivo. Uma carga desnecessária aos seus ombros que, apesar de parecerem suportar qualquer fardo, são frágeis e pequenos para aguentar certas farpas alheias…

Mas por que esta seria, então, uma dor colorida, se tudo se faz supostamente tão amargo e latejante? Ao que a menina responde – com seu ar ingênuo e um tanto inócuo de virilidades:

… “porque voar é mais fácil do que viver com os pés no chão”…

Em meio a algumas pausas em que ela se permite esvaziar suas farsas – para fugir do caos -, os anos passeiam sob a luz da janela de seu quarto… Ela vê cada dia chegando e indo embora, como se tivesse adentrado aquele seu espaço apenas para uma visita crua. Sem vínculos nem afinidades: apenas figuração.

E a menina devaneia, no contexto da mente brincalhona que aprendeu a sustentar ao longo da jornada – às vezes até leve, quando se esquece das esquisitices que permeiam o resto de seu mundo:

“…. talvez também seja próprio da vida chegar sempre assim mesmo, de visita… e é nossa missão – como humanos – respirar alguns silêncios para continuar delineando passos…

… dias…

… anos…

… uma existência inteira a se descobrir, apesar das pulsões contrárias”…

*Este post é parte integrante do projeto “Caderno de Notas – Terceira Edição”, do qual participam as autoras Ana Claudia Marques, Ingrid Caldas, Lunna Guedes, Mariana Gouveia, Thais Lopes, Tatiana Kielberman e Thelma Ramalho.