Sonho real…

“A resposta certa não importa nada:
o essencial é que as perguntas estejam certas.”

[Mário Quintana]

Despertei lentamente em meio à penumbra do quarto que, como num sopro, chamou-me à vida nesta manhã… a realidade entremeada em seus cortes fez a alma recordar o sonho: nele estava você! – com suas metáforas e o tanto que delas fermenta em meu ser: devaneios imprevisíveis…

Sua figura veio ao meu encontro, como costumava acontecer tempos atrás… Adentrou cada canto daquele espaço, acariciando meus cabelos de menina – e, confesso: abri os braços, ensaiando um abraço demorado – mas, conscientemente, tudo o que minha fragilidade permitiu foi o silêncio…

Suas mãos suaves feito brisa chegaram a percorrer o meu rosto – latente em chamas de afeto –, com um toque sereno… inconfundível! Por um segundo, abri  mão de meus infortuníos… revelando parte do que mantenho embaixo dos véus, que ofuscam o meu olhar inócuo  – como neblina  – rudimentando os dias.

Desnudei-me frente ao seu espelho, entregando-me fielmente ao seu colo… entorpecida, absorta, perdida e, ao memo tempo, liberta… para suplicar certa espécie de orientação aos meus movimentos!

Seu abrigo acolheu-me a alma, possibilitando o desadormecer de meus sentidos… amanheci em paz, como se a realidade fosse ainda parte desse sonho!

Amar um sonho…

ridículos
como Pessoa
e suas cartas

somos nós
nosso vazio
e nossas marcas

aquele chorou rios
ela sofreu horrores

ao falarmos de amor
todos somos
amadores

[Kleber Bordinhão]

Eu não tenho a certeza de que você não me quer – e isso te faz ser meu todos os dias.

A gente se encontra, enrola os fatos, dissimula o que poderia ser… e o que nunca foi.

Mas inventa modos desconcertados de dizer que ama, já que o sentimento é, por vezes, tudo o que se há.

E ama, sim. Muito. Outro nome que não seja amor se faz inexistente.

Mas há o medo… Ah, o medo… Este tolo que pensa nos enganar. Até engana – quando o sonho e o real se mesclam em facetas quase intocáveis.

Contudo, mesmo sentindo medo, não abdico de você. Aprendi a não desistir de nós.

Porque, enquanto eu te esperar, você se manterá vivo. Aqui dentro, talvez lá fora. Em miragem ou no palpável, eu faço você existir para mim.

Sei que provavelmente tudo isso não passa de uma grande besteira. Entretanto, se a gente se leva a sério demais, desaprende também o que é brincar de viver.

Nas tardes acaloradas – momentos em que meu corpo quase se desmancha pela brisa quente -, eu te olho e, por um momento, penso:

“- Ah, se ele pudesse ser meu! …”

E sigo andando, porque ainda não é. Mas a simples ânsia de tocar você me faz dar mais um passo, e outro, e mais um…

Pois, quando finalmente der certo, pode ser que perca a graça. É muito meu, isto: a vida toda treinei lidar melhor com probabilidades do que com verdades.

Já fiz um trato com o coração: se eu não encontrar seus braços, sinto que ao menos terei chegado mais perto de mim mesma.

A minha realidade não existe.

Desde o princípio dos tempos, quando não havia sombra nem brisa, tornei-me um sopro que se quis verdade.

Fui fiel ao canto que ouvi ao longo daquelas noites e, pausadamente, construí o que pensava ser real.

De fato, não era apenas um pensamento. Eu tinha as minhas certezas e quem refutasse poderia ser comparado a um mero bobo.

Boba, talvez, tenha sido justamente eu, ao pensar que a sorte de um bom encanto pautado no sonho satisfaria os impulsos da vivência.

Tentei, sim, criar traços de concreto. Expus o cimento ao chão e idealizei castelos, que não eram feitos de areia nem de vidro, muito menos de aço.

Eles se compunham de alma. E eu me via ali, completamente entregue àquela essência que havia derramado de mim.

Aos poucos, bem aos poucos mesmo, compreendi a mensagem. Eu não havia feito nada. Eu não era nada.

Um punhado de lembranças se vislumbrava em algum lugar, à minha espera, aguardando ser agarrado por mãos fortes e sadias. Mas eu não sabia bem por onde iniciar a procura.

É… Por muito tempo, deixei tudo espalhado naquele canto que não visitei, à esquina de qualquer essência.

Foi na catarse que pude parar de aceitar o limbo das ilusões, correndo em busca dos resquícios perdidos no livro da minha própria história – ainda em branco.

Deu-se o começo, pois, de uma intensa e nova perspectiva. Um caminho de folhas caídas que cedia espaço às sementes do nascer.

Precisei dar o primeiro passo para me reinventar.

Porque, até o presente instante, a minha realidade simplesmente não existe.