Será possivel reencontrar esta tarde?

Também eu saio à revelia
e procuro uma síntese nas demoras
cato obsessões com fria têmpera e digo
do coração: não soube
e digo da palavra: não digo (não posso ainda acreditar na vida) e demito o verso como quem acena
e vivo como quem despede a raiva de ter visto.

– Ana Cristina Cesar –

Recosto-me aqui em suave teimosia, como quem procura por novas palavras neste vocabulário que, a um primeiro olhar, parece vasto-imenso-amplo… mas, em tão decisivos momentos, deixa-me à deriva, permitindo que eu me alimente apenas de minha voz interior.

Escolho um assento que demonstra receber confortavelmente o meu corpo e, de certo modo, também acalenta a alma… O sabor do chá já havia sido selecionado antes mesmo de estar em frente à tela em branco, afinal… os rituais me precisam. Eles urgem em mim como água que necessita de fonte para nascer e atingir seu ápice.

Para hoje, amoras silvestres… nem tão doce, nem tão amargo. Cítrico, talvez? Uma representação deste momento que não sei definir, e pode ser que nem precise… Afinal, nem as palavras me concederam – até o presente instante – a honra de seu encontro!

Meu coração recebe um convite para reviver o que ainda não foi dito… suspirar a lembrança que ainda não foi vivida… alinhar realidade e imaginário em uníssono, possibilitando o elixir das emoções…

Algumas letras arriscam voar da mente em direção ao papel e posso sentir, enfim, que respiro em paz… Sorvo o líquido já morno que vem da xícara de chá, minha companheira amena destas horas que desejaria tanto prolongar.

Não sei se sou uma extensão de meus dias ou se eles é que se dão através de mim: por ora, deixo-me restaurar por esta simbólica tarde de singelezas, amenidades… e vida.

Das tardes que encontro em ti…

“Se em um instante se nasce e em um instante se morre,
um instante é o bastante para uma vida inteira.”

[Cecilia Meireles]

Já passa das cinco da tarde e eu quase consigo enxergar as pessoas ensaiando uma espécie de repouso lá fora… as ruas e seus movimentos pedem descanso, enquanto o sol se esconde no horizonte, ainda que sua luz ainda permaneça visível aos meus olhos…

O calor insano de hoje me levou à exaustão – fazendo alusões àquilo que sinto quando meu corpo chega ao limite. Não se trata de uma situação muito incomum, você bem sabe… mas dias assim me permitem recordar que é preciso de uma dose extra de energia para se estar presente de corpo e alma neste planeta Terra – não tem sido fácil ser minimamente humano por aqui…

Dentro de mim, percebo que sempre há muito a fazer, mesmo que em verdade o meu desejo seja me permitir parar por um instante – contemplar cenários e, acima de tudo, relembrar partes sagradas de diálogos… Palavras que não voltam mais em tom semelhante – pois foram únicas em sua naturalidade e beleza – mas se eternizaram em minha lembrança.

É isto que fica em meu íntimo na estafa de uma terça-feira comum como hoje: você… Entre o tudo e o nada que consigo ater nas mãos, cada som emitido por sua voz reverbera em mim como nuvem – esfumaçando memórias que acalentam o coração, prometendo amanhãs de maior conforto na pele que habito…

Fico por aqui, pois hoje ainda preciso das letras para um pouco mais… Você vem ao meu encontro?