Quando é amor…

“(…) Mesmo que você não esteja aqui
O amor está aqui agora
Mesmo que você tenha que partir
O amor não há de ir embora (…)”

— Titãs —

É amor em cada hora na qual permaneço aguardando tua chegada – tantas vezes indócil, incerta e imprecisa -, para só então permitir que brote um sorriso em meu rosto.

É amor no instante em que percebo que o dia não começa antes de ter qualquer sinal de notícias tuas. E, exasperada, quase me perco em meio a andanças e palavras, sem saber o que fazer com esta ausência.

É amor quando noto que, antes mesmo de conhecer meu nome, eu já sabia pronunciar o teu… Porque é bonito, suave e tantas vezes mais encantador sentir os lábios balbuciarem algo que me direcione a ti.

É amor no segundo em que a nossa sincronia se faz evidente – inegável e intrínseca a cada manhã. Quando repetimos as mesmas frases sem perceber, e o pensamento converge tanto que até nos assusta.

É amor quando me vejo desesperada ao te perder de vista, mesmo que seja por questão de minutos. É perceber-me dependente de tuas marcas, de teus passos ousados e arredios – mas que, de algum modo, não se furtam a me dar a mão.

É amor em todo anoitecer – quando, antes mesmo do cansaço chegar, eu te ganho de presente, em embalagem de fita dourada. Os meus olhos se confundem com os teus e só nos resta, pois, consolidar aquilo que nasceu para ser um.

É amor no lampejo do tempo… Na lacuna em que as definições já não bastam, deixando espaço para que todo o sentimento sublime entre nós se expresse em forma de paz…

Das sensações que me invadem…

Uns, com os olhos postos no passado,
Vêem o que não vêem: outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, vêem
O que não pode ver-se.

Por que tão longe ir pôr o que está perto —
A segurança nossa? Este é o dia,
Esta é a hora, este o momento, isto
É quem somos, e é tudo.

Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto
Em que vivemos, morreremos. Colhe
O dia, porque és ele.

Ricardo Reis, in “Odes”
(Heterónimo de Fernando Pessoa)

Gosto do sentimento que nasce enquanto percorro as ruas temperadas por um clima ameno, tão ou mais familiar que minha própria alma…

Decerto, o desejo era estar absorta no aconchego do meu apartamento, mas uma vez que isso não é possível, busco apreciar as paisagens que tocam gradativamente o olhar.

Não há quase pessoas em volta; é como se a vinda de uma leve garoa e do tempo aparentemente fresco tivesse levado cada um para dentro de seu próprio casulo

Temperaturas mais frias combinam com tardes enroladas no edredon, filme antigo passando na TV, pipoca, livros espalhados pela cama, chá de frutas silvestres e, claro, um bloco de notas repousado sobre o criado-mudo, para quando a inspiração vier…

A impressão que tenho é de que cada uma dessas delícias insiste em fazer morada em meu íntimo, levando-me a crer que, enquanto o corpo caminha entre as esquinas e desvia a atenção para fora, a alma já está em algum lugar bem distante daqui, olhando preferencialmente para dentro…

Usufruo o deleite de não precisar apressar o passo. O andar se faz sereno e eu levo meu copo de café nas mãos, como se estivesse envolta por uma paisagem europeia, rústica – em que as folhas caem da árvore e conversam longamente com o asfalto urbano…

Talvez seja muita pretensão de minha parte afirmar que o clima tornou a a ser nosso amigo e se manterá assim pelos próximos dias, mas não posso negar que tal afirmação compõe uma das minhas vontades mais sinceras…

É como disse uma grande amiga minha: desde o último sábado, quando a temperatura decidiu oferecer sua trégua, eu me enclausurei em meus espaços, quase como uma velhinha inglesa que apenas deseja degustar sua xícara de chá… Afinal, para que eu desejaria mais?

Aprecio muito quando as horas oferecem o melhor de si em minha direção.

E, ultimamente, tudo o que também almejo é me demorar suficientemente em cada uma delas

Quero outra manhã depois dessa madrugada…

“(…) Perca algo todos os dias. Aceite a irrequieta frustração
De perder as chaves da porta, de desperdiçar tempo. (…)”

– Elizabeth Bishop –

Confesso que já estava quase me acostumando ao calor exacerbado dos últimos dias, cuja temperatura se entranhou em meus poros de modo antes não imaginado.

Adequei-me ao ritmo das manhãs ardentes e busquei seguir os passos rotineiros, afinal, a vida não para – nem mesmo se acalma – só porque o astro-rei decidiu brilhar com voracidade lá fora…

Pelo contrário, o que pude perceber foi que, ao passar das recentes semanas, as pessoas se tornaram ainda mais esbaforidas, impacientes e apressadas. Deve ser efeito do termômetro elevado que as deixou assim, um tanto quanto indóceis…

Enfim, após um longo período em que ficamos envoltos por quase quarenta graus aqui na cidade de São Paulo, o anoitecer de ontem nos trouxe o espetáculo da tempestade, refrescando os ares e clareando também algumas ideias – antes um tanto abafadas.

A madrugada, assim, prometia ser mais amena e propiciar um sono tranquilo, talvez reparador, sem exigir presença tão obrigatória de ventiladores, ares-condicionados ou janelas demasiadamente abertas…

Mas o fato é que acordei mais cedo do que pretendia nesta manhã de sábado que nem se arriscou a insinuar qualquer raio de sol. Após uma razoável dimensão de idas e vindas do sono, rendi-me ao despertar, já que por ora os pesadelos haviam se feito suficientemente densos.

Penso que o corpo se acostumou a remexer-se involuntariamente na cama entre os lençóis, buscando posição adequada para repousar em meio aos ares intensos e acalorados que percorriam o quarto…

O metabolismo – ou seja qual for o nome que se dê a tudo aquilo que reside aqui dentro – deve ter estranhado a mudança meteorológica repentina e não acreditou, nem se conformou com a leveza que foi tomando conta do ambiente.

Preparei minha xícara de café quente, acompanhada de torradas com geleia. Um menu especial para o sábado, que pede aromas delicados no instante em que o amanhecer se faz mais cinzento…

Ainda que o cenário parecesse contribuir à singeleza do momento, não foi bem assim que ocorreu… Procurei em diversos lugares, mas não vislumbrei disposição para reunir uma boa dose de palavras arraigadas em minha alma no dia de hoje.

Tudo que existe e parece palpável é uma intuição pedindo silêncio – no aguardo de nuances que promovam a continuidade dos fatos.

Quanto não surgem elementos recíprocos para toda a ansiedade que já me é conhecida e familiar, o íntimo se vê perdido – tal qual tivesse sido abandonado em um canto qualquer das esquinas. Devo, talvez, recuperá-lo para acalentar suas lacunas, ao passo que estas não podem ser preenchidas de imediato.

Dou boas-vindas à minha manhã e permito que ela guie os passos com serenidade, equilibrando de certo modo a tensão vivenciada nas horas que se passaram.

Não há resposta alguma que se mostre visível ao meu olhar, mas enquanto existir aqui dentro tamanho sentimento, permanecerei à terna espera daquilo que invariavelmente faz o coração sorrir…

*Este post é parte integrante do projeto “Caderno de Notas – Segunda Edição”, do qual participam as autoras Ana Claudia Marques, Ingrid Caldas, Luciana Nepomuceno, Lunna Guedes, Maria Cininha, Tatiana Kielberman, Thelma Ramalho e a convidada Mariana Gouveia.

Catarse

Quando entre nós só havia
uma carta certa
a correspondência
completa
o trem
os trilhos
a janela aberta
uma certa paisagem
sem pedras ou
sobressaltos
meu salto alto
em equilíbrio
o copo d’água
a espera do café

[Ana Cristina Cesar]

Eu quero percorrer cada uma daquelas ruas que você descreve… Quero sentir o sabor cítrico do chá que você degusta e viajar para os lugares que suas letras delicadamente visitam.

Eu quero sentir as suas sensações e pensar os seus pensamentos. Talvez porque isso me ajude um pouco a escapar deste lugar que já não me cabe mais – sabe, nem sempre é gostoso ou fácil ser eu…

Eu quero me envolver nos livros que você devora e escrever as linhas que sua caneta ensaia no papel… Quero provar o gosto da sua culinária e cumprimentar os amigos que você encontra…

Eu quero conhecer o que você sabe e ignorar o que não te importa. Quero discutir com quem te incomoda e fazer silêncio diante da beleza que encanta o seu olhar.

Eu quero me identificar com você pois já não me encontro aqui dentro. Almejo ser outra. Trocar as vestimentas – do corpo e do coração. Talvez mudar de cidade, quem sabe. Acho que eu não seria tão ousada assim…

Mas quero. Quero e preciso. Preciso e não nego.

Vou ali, fugir de mim…

É meia-noite no fim da página…

“Então somos adultos…
Quando isso aconteceu?
Como podemos parar?”

Quando menina, eu costumava pensar que, ao me tornar adulta, não precisaria mais conviver com as grosserias e indelicadezas advindas da sinceridade das crianças que me cercavam.

Tomo a liberdade de utilizar a palavra “crianças”, como se este fosse um terceiro elemento alheio a mim, porque em pouquíssimos momentos me senti como tal. Sempre fui fechada, um tanto mais séria e de poucos amigos, numa espécie de isolamento que automaticamente me direcionava ao mundo adulto.

Mas o fato é que eu achava que, quando envelhecessem, as pessoas se tornariam mais amenas. Em minha mente, aquele olhar de reprovação se transformaria em algo mais dócil, tolerante e compreensivo. A agressividade advinda dos pequenos me assustava – e era como se eu nunca pudesse ser parte integrante do grupo deles.

Do mesmo modo, sempre que assistia aos filmes de contos de fada, acreditava que na vida adulta fosse acontecer igual no meu mundo. Um belo dia, eu conheceria alguém que me pediria em casamento – simples assim, do dia para noite. E seríamos felizes para sempre.

Neste momento, vocês podem me perguntar: e a bruxa malvada, os monstros… onde entram? Como criança boba e ingênua que era, pensava estar vivendo essa parte do pesadelo ali mesmo, na infância. Para mim, todas as malvadezas que precisassem surgir o fariam naquele instante, e mais tarde – adulta – eu ficaria livre de perigo.

Sim… Eu levianamente me pautei na ideia de que a vida começaria quando me tornasse adulta. No tardar das horas… Quando as sombras e os medos já estivessem bem distantes de mim, numa espécie de lugar inalcançável.

Mas, você vê? Adulta que sou hoje – ou pelo menos tento ser -, as pessoas que estão à minha volta não parecem menos cruéis. Eu mesma me vejo sendo rude comigo e diante dos outros em diversas horas, e isso não é novidade. Apenas evidenciei com o tempo o que já existia em mim quando criança.

A sinceridade que permeia o universo infantil se perde com o passar dos anos, é fato. Poucos são os que se mantêm autênticos e fieis a si próprios ao expor suas ideias ao mundo. Mas eu aprendi que adultos podem ser tão ou mais intolerantes, desrespeitosos e esmagadores do que as crianças.

Basta olhar pela janela e ver que finais completamente felizes e pessoas boazinhas só existem mesmo nos contos de fadas. E, mesmo assim, correndo o risco de extinção…

Talvez amanhã a minha crença se modifique, mas por hoje penso que o melhor é tentar dormir. Esquecer que não me tornei o que queria. Deixar de lado a ideia de que há um pote de ouro me esperando além do arco-íris.

Já se faz meia-noite no fim desta página e tudo o que me restou até agora foi a solidão…

*Este post é parte integrante do projeto “Caderno de Notas – Segunda Edição”, do qual participam as autoras Ana Claudia Marques, Ingrid Caldas, Luciana Nepomuceno, Lunna Guedes, Maria Cininha, Tatiana Kielberman, Thelma Ramalho e a convidada Mariana Gouveia.

Os dias de fevereiro…

Ouço o barulho das trovoadas que anunciam uma provável tempestade do lado de fora da janela… Janeiro já se foi e penso que cumpriu o papel a ele destinado, deixando como bagagem a leveza dos momentos singelos, da despretensão de simplesmente estar onde se está.

Eis aí uma lição que espero certo dia aprender e assimilar: viver o presente. Parece comum aos olhos alheios, mas a esta que vos fala é um dos ensinamentos mais complexos da existência.

Fevereiro chegou atropelando meus espaços. Eu, que pensava ter finalmente ter assumido o controle das coisas, vi-me completamente perdida. Tenho as regras, mas não tenho a força para o ato.

Ah… São tão imperfeitos esses controles, que me dão até náusea! Nem sei por que insisto em mantê-los por perto… talvez por fuga, defesa ou coisa assim. A bem da verdade, eu conheço bastante o mecanismo – só não sou boa em “largar o osso”.

Mas, do mesmo modo como a chuva, que apenas ensaia deslizar suas águas pelas ruas da cidade e raramente se concretiza, abafando ainda mais o ambiente, eu também sufoco os meus instintos a cada nova tentativa de vida.

Já não sei mais por onde ir e qualquer caminho me parece insuficiente. Logo eu, que assumo ser razoavelmente forte na superfície, estou presa dentro de mim. Observo-me de mãos atadas e, numa paisagem já tristemente reconhecida, calo a voz.

Não que falar ao mundo fosse resolver todas as mazelas, mas se eu conseguisse dialogar aqui dentro, expondo a verdade dos fatos à minha alma, pode ser que a hipocrisia cotidiana me incomodasse menos.

É… Fevereiro está aí, mas eu ainda não cheguei até ele. Seus poucos dias passaram por mim como um trator, sem pedir licença. Silenciando os espaços e deixando inúmeras incertezas, mesmo que aparentemente “esteja sempre tudo bem”

Ando devagar porque já tive pressa
E levo esse sorriso porque já chorei demais

Hoje me sinto mais forte, mais feliz, quem sabe
Só levo a certeza de que muito pouco sei
Ou nada sei

Conhecer as manhas e as manhãs
O sabor das massas e das maçãs

É preciso amor pra poder pulsar
É preciso paz pra poder sorrir
É preciso a chuva para florir

Penso que cumprir a vida seja simplesmente
Compreender a marcha e ir tocando em frente

Todo mundo ama um dia, todo mundo chora
Um dia a gente chega e no outro vai embora

Cada um de nós compõe a sua história
Cada ser em si carrega o dom de ser capaz
E ser feliz

(Tocando em Frente – Almir Sater e Renato Teixeira)

A menina que um dia eu fui…

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
Em que espelho ficou perdida a minha face?

—– Cecília Meireles —–

Olho para trás e nada me basta. Não há sombras nem tempestades que pareçam suficientes para acalentar todo este espaço vazio que insiste em adentrar o meu peito.

Ouço vozes, como se cada uma daquelas pessoas ainda estivesse por aqui, circulando entre os cômodos da casa… Elas me cumprimentam agradavelmente. Sabem meu nome, compreendem a minha história – mas eu estranhamente as desconheço. É como se nunca tivessem feito parte de mim.

Rememoro a saudade do tempo em que eu costumava sonhar longamente… Não aqueles sonhos curtos, que se esvaem em questão de segundos. Esses parecem cercear apenas o território dos adultos…

Em vez disso, aprecio a lembrança da ilusão suave de uma mente fértil: que se demora nos desejos, por não haver outra realidade palpável para si durante o breve instante.

Ao tomar nas mãos – em devaneio – a boneca de infância que nunca tive, abraço a vontade nutrida por um amanhã melhor. Mais ameno e confortável. Menos triste, talvez. Mas… assim como a boneca, este dia também não chegou. Ao menos, não como eu vislumbrava…

Hoje os dias passam e eu continuo avistando as pegadas que deixei pelo caminho. Com base em cada marca, traço uma curva para o destino que almejo, já que – além dele – pouco ou nada me pertence.

Preparo uma breve pausa e observo os rompantes com que a vida me surpreende. Há certo sabor de aventura ao me olhar no espelho com tamanha verdade, quando nunca antes isso foi permitido. É corajoso – e sempre vai ser, de alguma maneira – ter que me descobrir assim, por mim mesma.

Em momentos de descuido, quando me faltam meios de alimentar os meus sonhos, a menina que um dia eu fui abraça a mulher que – em determinado tempo – desejo ser.

Elas caminham juntas, em desatino e velocidade, buscando desesperadamente recuperar momentos nossos – mas, como se recupera o gosto de um amor que não foi recebido?

Como é que se contam nos dedos os abraços abdicados, as palavras não ditas, o silêncio truncado? Como desamarrar da garganta um nó que se lacrou em torno de um choro sem fim?

Não sei se é possível – nem mesmo compreendo se vale a pena insistir em peças cujo encaixes não combinam.

Contudo, o desejo existe e faz pulsar este meu coração – colocando-me a pensar no quão incômodo seria não realizá-lo.

Então, fecho os olhos por um instante e sinto a presença daquela menina diante de mim. Por instinto ou loucura, eu a pego no colo. Enxugo suas lágrimas. Acalmo seu suspiro profundo. Entrego-a, pois, a esta mulher que – feito Fênix – surge em mim tão gentilmente. Eu a aceito…

Decerto que demorou tempos – talvez a vida inteira – para uma existir dentro da outra, mas o momento é este e as pegadas que vejo são possibilidades. Um rastro do que eu fui e ainda serei…

*Este post é parte integrante do projeto “Caderno de Notas – Segunda Edição”, do qual participam as autoras Ana Claudia Marques, Ingrid Caldas, Luciana Nepomuceno, Lunna Guedes, Maria Cininha, Tatiana Kielberman, Thelma Ramalho e a convidada Mariana Gouveia.

Amar um sonho…

ridículos
como Pessoa
e suas cartas

somos nós
nosso vazio
e nossas marcas

aquele chorou rios
ela sofreu horrores

ao falarmos de amor
todos somos
amadores

[Kleber Bordinhão]

Eu não tenho a certeza de que você não me quer – e isso te faz ser meu todos os dias.

A gente se encontra, enrola os fatos, dissimula o que poderia ser… e o que nunca foi.

Mas inventa modos desconcertados de dizer que ama, já que o sentimento é, por vezes, tudo o que se há.

E ama, sim. Muito. Outro nome que não seja amor se faz inexistente.

Mas há o medo… Ah, o medo… Este tolo que pensa nos enganar. Até engana – quando o sonho e o real se mesclam em facetas quase intocáveis.

Contudo, mesmo sentindo medo, não abdico de você. Aprendi a não desistir de nós.

Porque, enquanto eu te esperar, você se manterá vivo. Aqui dentro, talvez lá fora. Em miragem ou no palpável, eu faço você existir para mim.

Sei que provavelmente tudo isso não passa de uma grande besteira. Entretanto, se a gente se leva a sério demais, desaprende também o que é brincar de viver.

Nas tardes acaloradas – momentos em que meu corpo quase se desmancha pela brisa quente -, eu te olho e, por um momento, penso:

“- Ah, se ele pudesse ser meu! …”

E sigo andando, porque ainda não é. Mas a simples ânsia de tocar você me faz dar mais um passo, e outro, e mais um…

Pois, quando finalmente der certo, pode ser que perca a graça. É muito meu, isto: a vida toda treinei lidar melhor com probabilidades do que com verdades.

Já fiz um trato com o coração: se eu não encontrar seus braços, sinto que ao menos terei chegado mais perto de mim mesma.

… porque escrever é um eterno desaforo!

sussurro sem som
onde a gente se lembra
do que nunca soube

— Guimarães Rosa —

Tenho em mim promessas de uma jornada que em breve pretendo passar a limpo: memórias, aspirações e um punhado de letras ao redor, compondo a harmonia tão necessária aos entraves da alma….

Assisto a muitas pessoas por aí que consideram a escrita como adorno, enfeite, supérfluo – para mim, as palavras não são menos que a essência, o elixir de todas as coisas. O motivo pelo qual se insiste em respirar.

Inexiste portanto, do meu ponto de vista, maneira ou atalho para se construir a história de uma vida sem que haja o processo latente e sublime de transmiti-la ao papel. Como prova disso, ontem mesmo um sopro de vertigem trouxe o recado à minha inspiração:

– Continue…

A ideia era que eu seguisse o rumo. Mas, qual deles, se há tantas e tão controversas opções em mim? O coração, com suas embaraçadas suposições de afeto… Ou a racionalidade, na aridez de seus passos envolvidos em concretude…

Se a intuição me diz que o importante é a caminhada, eu evito escutar outros ruídos: simplesmente sigo… Vou alternando entre dizer não ao lampejo das horas e idealizar certo tipo de fluxo meu, desde os pequenos ensaios…

Sim, poderia confiar no meu feeling e acreditar que as memórias de hoje permanecerão vivas em mim amanhã… E é até capaz que fiquem, mesmo. Mas as vivências? Ah… as vivências se esquecem.

E eu preciso – MUITO – exercitar o meu desaforo de escrevê-las na eternidade.

Versos que nos despertam para a vida…

“Quando se olha para a vida sem romance, tudo se torna descartável, a começar por si próprio.”

(Poeta da Colina)

Foi de maneira um tanto despretensiosa que os versos dele chegaram aos meus olhos.

A princípio, eu o conheci pelo Twitter, passando para algumas trocas no Facebook e, finalmente, adentrei o espaço aconchegante do seu blog.

O encantamento foi imediato e a identificação também, pois ele parecia falar das minhas emoções mais primárias e importantes.

Ao lançar seu primeiro livro – Poeta da Colina – Um romântico no século XXI – no ano de 2011, fui logo garantir o meu exemplar, afinal, imaginei que suas letras seriam ainda mais acalentadoras quando reunidas em uma compilação…

O querido Danilo Mendonça Martinho é um doce de pessoa, que ainda não ganhei a honra de conhecer pessoalmente, mas espero fazê-lo em breve.

Ele também faz parte do ról de colunistas do Retratos da Alma – blog coletivo que eu tenho o privilégio de administrar junto a mais quinze caros colegas de escrita (no momento em processo de repaginação)…

Deixo, pois, que suas letras em versos falem por mim…

A vida embaixo das estrelas

Não conheço estrela cadente
Só conheço a chuva fina
E o pôr-do-sol avermelhado
A noite sempre foi escura
Salvo as de Lua Cheia
As estrelas não iluminam
Muito menos caem do céu
Olho para elas todas as noites
Nenhuma delas rasga a escuridão
Sorte de quem vê e pede
Meus desejos continuam aqui
Nesse mesmo chão
Sonhos em preto e branco
Nascem todos os dias
Por mais que morram todas as noites

— Danilo M. Martinho —