Lá, onde se esconde o vazio…

“Mas o vazio tem o valor e a semelhaça do pleno. Um meio de obter é não procurar, um meio de ter é o de não pedir e somente acreditar que o silêncio que eu creio em mim é a resposta a meu – a meu mistério.”

– Clarice Lispector –

Os dias insistem em transcorrer sem parada e, nos instantes de lucidez pura, agradeço à vida pelo movimento que me concede em busca da concretização no palco da realidade…

Intercalo-me em um ciclo de produtividade que parece sadio, que me tira do ciclo dos medos e quase não deixa espaço para o pensamento crítico, para o sentir em si.

Mas, é na pausa para o café, naquele singelo momento de diálogo da minha alma comigo, que sigo ao encontro dele… do vazio.

Um amigo (ou será inimigo?) que se esconde quase o tempo todo, com temor de ser visto por quem não tem a melhor habilidade de interpretá-lo. No caso, eu mesma…

Apresento-me a ele, um pouco tímida e receosa de que perceba cada uma de minhas fraquezas. E o vazio segue se esquivando, como não estivesse lá. Porém, tenho certeza de onde se oculta e já não posso mais negá-lo.

Brincamos de esconde-esconde, como colegas de infância… Não nos assumimos. Um compromisso sério demanda confiança, afinidade e boa dose de liberdade de expressão, o que, certamente, levará certo tempo até construirmos.

Não tenho pressa… Por ora, apenas permito-me compreender que encontrei, finalmente, o esconderijo desse tal de vazio.

É nas horas de calmaria que ele aparece e vem me visitar, de sobreaviso. Não deseja ser esperado. Apenas chega para me ensinar sobre as surpresas intrínsecas da vida…

Em meio à sua presença, necessito trocar o fazer pelo ser. Tarefa difícil para aquela que se vê fora de si praticamente o tempo inteiro, (inter)agindo, mas pouco sendo – de verdade – a sua essência.

O vazio se acomoda para me mostrar o real cenário apagado das ruas… Concreto. Legítimo e fiel ao sonho que se quis.

E eu o recebo, afinal, não há nada que seja mais parte de mim.

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Entre o caos e o breu…

“Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher, com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventado.”

– Clarice Lispector –

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Tenho espaços aqui dentro que se alternam constantemente entre lacunas e exacerbações.

Sim, é certo, nunca soube lidar claramente com o bom senso e o provável equilíbrio da harmonia entre as sensações.

Mas o fato é que vivenciar todos os dias essa variação insólita, por vezes, me cansa.

Reconheço-me como imagem fielmente estampada no espelho e, poucos segundos depois, já nem sei mais quem sou…

Quem fui? O que poderei ser? Isso quase não importa quando me desvencilho de mim…

Talvez seja mesmo ilusão, por ora, acreditar que o ser humano se identifique como o que realmente é.

Somos tão distantes do nosso ideal que perdemos a noção daquilo que, de fato, existe em nós.

Penso que, também, o que quero se configura bastante inexato perto do que meu corpo e meu coração aceitariam como prova concreta de vivência.

Em meio às minhas limitações, estabeleço pequenos ensaios de memórias ainda não vividas.

Desconheço-me em pedaços.

Refaço-me toda.

Sou.