… ao acaso?

Há uma canção do Legião Urbana que diz: “disciplina é liberdade”… foi uma amiga próxima que me alertou sobre a preciosidade dessas palavras, às quais eu nunca havia dado muita importância, mas que acabam por produzir mudanças muito intensas em mim, quando decido adotá-las como lema de vida…

Desde pequena, confesso não ter sido a pessoa mais disciplinada, apesar da aparência certinha, que denotava alguma delicadeza nos gestos e escolhas… Sempre deixei que um tal de destino compusesse o quebra-cabeças da minha existência, de modo a encaixar as peças conforme bem entendesse… se desse certo, ótimo! Caso contrário, era tentar e tentar outra vez, até conseguir.

A partir dessa crença baseada em happy-endings, corri riscos sem ao menos mensurar certas emboscadas, e assumi desafios bem maiores do que meu raio de alcance, o que nem sempre resultou em algo bom de verdade… Passei por consequências das mais diversas e aprendi – a duras penas – que nem tudo dá certo no final…

Tive que me render, pouco a pouco, à disciplina, anteriormente tão dispensada por mim. E, além da leveza conquistada, é inegável afirmar que – como nos ensina Legião – eu me sinto mais livre, sem precisar guardar todos os compromissos e responsabilidades na memória, no corpo e na alma…

Aprendi que delegar não é crime, que pedir ajuda é sinal de sanidade e, acima de tudo… que, para ser feliz por fora, preciso primeiro descobrir como me sentir confortável aqui dentro…

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Viver: verbo infinitivo

Não faz muito tempo… foi ontem! Conversávamos na cozinha durante um processo lúdico de edição, que invariavelmente se desdobrava em terapia, para minha sorte… O riso corria solto sempre que eu me deparava com o verbo em sua forma infinitiva: bastante frequente ao idioma falado em Portugal e, portanto, familiar a você, que residiu em Coimbra por um longo período…

Talvez seja usual a nós, seres humanos, o estranhamento diante daquilo que nos parece diferente, distante… incomum! Preferimos nos afastar a chegar mais perto e entender do que se trata… encarar uma mudança… confrontar o que se mostra habitual em nossa rotina.

Aconteceu desse modo comigo, quando fui desafiada a questionar os meus gerundismos – já tão incorporados ao dia a dia –, e me permitir trocá-los, aos poucos, por alguns infinitivos… De início, apenas para fazer graça! Logo em seguida, porque achei bonito, imponente… e, por fim, ao entender o sentido de substituir ações aparentemente intermináveis por verbos lineares e pontuais… de firme impacto em meu íntimo.

Foi assim que pude notar que – por um longo tempo, antes de te conhecer – “estive fazendo” coisas, sem comprometimento com as pessoas, situações ou comigo mesma… E sua presença organizou certos espaços, para que eu me dispusesse a enxergar a existência com outros olhos… com a leveza de quem pode estar em continuidade sem carregar pesos que não lhe pertencem mais.

E, a cada manhã, viver torna-se verbo infinitivo no instante em que o sol nasce em minha janela…

A ordem natural das coisas…

Sou o que, apesar de tão ilustres modos
De errar, não decifrou o labirinto
Singular e plural, árduo e distinto,
Do tempo, que é de um só e é de todos.
Sou o que é ninguém, o que não foi a espada
Na guerra. Um esquecimento, um eco, um nada.

| Jorge Luis Borges, in “A Rosa Profunda” |

Cada vez mais acredito que existe uma ordem natural para todas as coisas… Por mais que eu, como ser humano, busque intervir com meus truques baratos diante da vida – seja para apressar o ritmo do vento ou para suplicar que as horas se demorem um pouco mais –, tudo tem o seu instante próprio. A sua pausa peculiar. O seu conjunto de movimentos – aparentemente desarmônico, mas muito hábil – que dá origem a esta orquestra chamada universo.

Pode parecer pretensioso e hilário falar em destino – talvez até seja –, em uma era na qual o homem se mostra tão interventor dentro de seu espaço. Construímos e destruímos a nosso bel prazer, com a mesma simplicidade e uma frieza singular. Pensamo-nos donos de um ambiente que, muito provavelmente, apenas nos seja emprestado… Será que em algum instante paramos para nos dar conta disso?

É justamente devido a tais contradições que reflito sobre esse nosso famigerado desígnio… ou porvir, como quiserem chamar. Pouco importa o nome se não há a crença. A questão é que talvez cada escolha e ato levem a um ponto muito mais além do que alcança este nosso limitado olhar.

Eu pouco sei acerca do dia de amanhã: ele permanece como um grande ponto de interrogação frente à minha janela, que hoje se faz sombra… Mas, confesso: tenho buscado brigar menos com o destino. Aceitar os fatos como se desenham, pois não há nada mais óbvio e corriqueiro que a própria existência em si. É ela quem dita as regras.

Por enquanto, eu desejo estar aqui – em meu canto solitário e escasso de mundo – para tentar segui-las…

Quando a vida me escapa entre os dedos…

“Porque os dias sem ela que virão não fazem sentido para mim. Eu não serei capaz de enxergá-los sem ela. E mesmo agora, que a amparo, que quase a carrego, sei que é ela quem me ampara e é ela quem me carrega. Que só sabemos andar juntas. E que, sem ela, me faltarão pernas.”

[Eliane Brum, In: Uma Duas, p. 153]

Desajeitadamente, ela percorre cada mínimo espaço da casa, buscando sem sucesso um lugar para chamar de seu. Sempre havia sido assim, mas nos últimos dias se mostrava clara a tensão presente: como encarar a rotina com uma tempestade a fluir diante dos olhos?

Em atos impensados e sucessivos… escancara cortinas, deixando o sol ardente penetrar os poros dos cômodos! Tenta encontrar vida onde não há eco que lhe responda. Insiste! A teimosia lhe faz crer que, em qualquer momento, será capaz de ouvir um ‘sim’…

Ensaia barulhos em tom de fingimento, apenas para causar ruídos… na esperança de que nasça uma inquietação! Ouve o tic-tac do relógio – que só faz somar as horas -, sem oferecer as soluções palpáveis do tempo…

Já em estado de desespero, por conceber somente o silêncio… deita-se sobre ela, e sacode o corpo frágil completamente, como quem suplica por uma reação! A ideia de perda faz eclodir no íntimo a angústia. Confessa seu medo e as lágrimas se confundem com suor… denotando um cansaço-medo-luta que exaure.

Juntas, tentam um pouco além… e só não sucumbem à morte, pois se precisam mais que água e ar.

Para enxergar, não basta apenas abrir os olhos…

Já faz algum tempo desde que as linhas de minha história se mesclaram em um emaranhado qualquer – indo fazer morada em fontes alheias… becos – que me remetem a uma redundância –, não saber onde fica a saída desta existência em pausas…

O acaso – sábio como somente ele consegue ser – me levou em direção a certa nuance inesperada: um livro, com sua narrativa em formato de eco, como se fosse a minha própria voz.

Em meio a um punhado de dúvidas acumuladas junto à superfície que me embala, tenho uma certeza: meus olhos se perderam – e se encontraram – naquelas páginas…  vislumbrei toda a minha vida sendo desenhada por uma pessoa que, talvez, à época, não me pudesse supor tão profundamente assim, mas que acabou por descrever cada centelha da imagem que eu precisava encontrar em mim mesma.

A partir daquela leitura única – acidental – trouxe para os meus olhos tudo que necessitava enxergar no momento – abri cortinas – encontrando respostas às muitas perguntas feitas ao destino – durante a vida…

Decerto, elas já haviam sido a mim expostas, mas não ouvidas, porque essas descobertas nunca nos são trazidas de maneira óbvia, como se fôssemos capazes de adivinhar a nossa própria verdade. Não, não somos… Precisamos de mensagens – ainda que discretas – pequenos símbolos… para que tenhamos a possibilidade de enxergar, enfim, o nosso reflexo.

… foi exatamente assim que se passou comigo e, depois disso, nada mais seguiu como antes.